A Lenda da «saída limpa» à irlandesa

Zacarias salva o país das maravilhas. Ajuda e encontra mais de 260 erros

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Desde dezembro que corre pelos meios de comunicação social o «êxito» da saída irlandesa do «programa de ajustamento» e o seu «regresso aos mercados». Necessitados, como de pão para a boca, de apresentar um sucesso da política de austeridade, aí temos a «saída limpa» à irlandesa. E os comentadores de serviço não se cansam de a apontar como exemplo ao nosso alcance. Portugal também poderá almejar a uma «saída limpa». Será que os economistas das contas de merceeiro têm razão e terão de ser reescritos todos os manuais de economia?

Qualquer olhar atrás da fachada é suficiente para perceber que, afinal, a Irlanda não é nenhum sucesso e menos ainda a prova de que é possível sair de uma grave crise económica com políticas neoliberais de austeridade. A Irlanda sai do «programa de ajustamento» não por causa da «poupança», mas apesar dela.

Mas o que significa realmente a saída da Irlanda? Pagou o empréstimo? Longe disso! Se tudo correr bem, lá para 2042. Os cortes orçamentais proporcionaram um orçamento equilibrado? Nem pensar! Este ano a Irlanda terá um défice de 7,3%, mais do dobro do previsto no Tratado de Maastricht. Então, certamente, conseguiram, com a política de austeridade, reduzir a dívida a um nível aceitável. Pelo contrário! Em 2014, a dívida ultrapassará os 130% do PIB e é só uma questão de tempo até ultrapassar a Grécia, enquanto Estado mais endividado da EU.

Mas então por que é a Irlanda um caso de sucesso, elogiado unanimemente pelos políticos apoiantes do Governo e os comentadores, sem exceção, com acesso à comunicação social? A economia real está em franco crescimento? Não se vislumbra. Pela segunda vez, no ano passado, a Irlanda esteve em recessão. O investimento privado, correspondente a 10% do PIB é o mais baixo da EU, o desemprego triplicou, a emigração aumentou, a dívida privada é a maior do mundo e não se vê nenhuma verdadeira inversão de tendência.

A «saída limpa» significa somente que a Irlanda se irá financiar nos mercados financeiros. Desde meados do ano passado que os juros se encontram a um nível em que não faz quase diferença se o país faz empréstimos junto à Troika ou junto dos bancos. Mas a acreditar nos editoriais e nos políticos da maioria, a Irlanda é o exemplo de que a política de austeridade começa a dar frutos, como aliás também em Portugal.

Que razões têm os investidores para confiar na Irlanda? Nenhumas, mas sabem que o BCE fará tudo o que estiver ao seu alcance para impedir a Irlanda de entrar em bancarrota. E sabem também que a Irlanda se transformou na menina dos olhos dos fundamentalistas austeritários. Se a Irlanda, que aplicou o programa da troika, entrasse em bancarrota, seria a prova de que as políticas da troika são erradas. E quem quer que isso fique demonstrado?

Ninguém sabe quanto tempo durará este «final feliz» irlandês. Como a economia real continua pelas ruas da amargura e os bancos irlandeses precisarão este ano de mais dinheiro, o país precisará de pedir muito dinheiro emprestado e não é certo que os juros se mantenham a um nível baixo.

Como a Irlanda foi transformada na história de sucesso, a troika encontrará um caminho para evitar o seu regresso a um qualquer «programa de ajustamento». Talvez o ESM venha a financiar diretamente os bancos em falência. A conta será depois apresentada aos contribuintes, nomeadamente aos alemães. O que será justo, já que grande parte da dívida pública irlandesa resultou das injeções de dinheiro aos bancos irlandeses, para estes pagarem aos bancos alemães. E assim se fecha o círculo. Os contribuintes alemães assumem os prejuízos dos bancos alemães. Dano colateral é a maioria dos irlandeses, castigada pelas políticas de austeridade.

A lenda da «saída limpa» à irlandesa é bem a demonstração de que o quarto poder está tão falido como o 1º, o 2º e o 3º.

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