Mutti sozinha em casa*

merkelkaiserCom 18.157.256 votos (41,5%), Angie Merkel ganhou as eleições do passado domingo. A impressionante vitória da Chanceler, mais 3.498.741 votos do que nas eleições de 2009, tem ofuscado a deslocação das placas  téctonicas da política alemã, que resultou destas eleições. Apesar desta vitória, as cidadãs e cidadãos alemães escolheram uma nova composição para o Bundestag e baralharam a política partidária. A CDU ganha expressivamente por causa de Merkel, o FDP desaparece do parlamento. O SPD fracassa com a sua estratégia de aliança com os Verdes. O DIE LINKE, apesar de perdas importantes, passa a terceiro partido e o AfD, partido de protesto à direita da CDU, ficou a escassos pontos de entrada no parlamento. Os diferentes campos políticos estão assim colocados perante novos desafios.

Merkel mantém-se Chanceler, mas o governo CDU/CSU/FDP não foi reeleito e a CDU/CSU não conseguiu maioria absoluta. O grande vencedor atingiu, de novo, a casa dos 40%. Se voltou a ser ou não um partido de largo espectro, só as próximas eleições poderão confirmar. O FDP teve um resultado catastrófico. Os 14% em 2009  (4,8% em 2013) foram, afinal o princípio do fim da sua existência parlamentar. Presentes no parlamento desde 1949 e o partido com mais anos de poder (33) vê-se assim reduzido a uma existência extra-parlamentar. A direção Westerwelle-Roesler ao reduzir o FDP ao liberalismo de mercado, despedindo-se do liberalismo político, passou a ser um partido de clientelas, a quem agora o eleitorado apresentou a respetiva fatura.

O SPD melhorou ligeiramente, mas alcançou o terceiro pior resultado em eleições legislativas. Com 11.247.283 votos (9.990.488 em 2009), o SPD viu-se reduzido à sua dura realidade política. Apesar da campanha «porta a porta» e do elevado nível de empenhamento dos seus militantes e principal candidato, o SPD não consegue recuperar as deslocações tectónicas de parte importante dos seus eleitores resultantes da política de reformas do governo SPD/VERDES entre 2000 e 2005. Perdeu definitivamente uma parte importante dos seus partidários para o Die Linke, a abstenção e também para a CDU. A pesar de ser essa a sua estratégia, o SPD não consegue ganhar o centro social à CDU e à sua esquerda não é capaz de impedir a entrada do Die LInke no parlamento.

Quanto aos VERDES, alcançaram o nível do «núcleo duro» do seu eleitorado (3.690.314 votos/8,4%), no qual se concentraram na fase final da campanha. A sua digressão pelo campo de novos estratos sociais mais conservadores, como aconteceu nas eleições do Baden-Wuerttemberg, que os levou a sonhar com 15% a 20% dos votos, revelou-se infrutífera. Sujeitos a forte oposição por parte da CDU e de organizações que lhe estão próximas, principalmente nas suas propostas de política de impostos, os VERDES subestimaram a posição da CDU, convencendo-se que esta aceitaria sem resistência a fuga dos seus eleitores.

O DIE LINKE, partido raramente referido nos media em Portugal ou classificado de extrema-esquerda, obteve um resultado respeitável e tornou-se no terceiro partido, a seguir à CDU e ao SPD e antes dos VERDES e da CSU. Confirmou os seus resultados de 2005 e destruiu todas as esperanças daqueles que se convenceram que, ao fim de duas legislaturas como partido de protesto, desapareceria da paisagem partidária. E se a leste são o segundo partido com resultados na casa dos 20%, também a oeste ultrapassaram de novo a barreira dos 5% o que reforça o seu papel enquanto partido nacional. A terceira entrada consecutiva no parlamento torna-os num partido estabelecido no sistema partidário alemão, o que lhe coloca novos desafios.

O AfD (Alternativa para a Alemanha), apesar de não ter conseguido entrar no parlamento, configura a existência de um partido de protesto no espectro da classe média, à direita da CDU. Constituído por professores universitários, o AfD alia, por um lado, os políticos defensores da «ordem e do liberalsimo de mercado» da CDU e do FDP, que não estão de acordo com as opções políticas do governo no que diz respeito ao Euro e, por outro, votos de protesto, também da área da esquerda. A multiplicidade de forças que se juntaram no AfD permite pensar que serão vários os problemas de consolidação com que este novo partido se irá confrontar.

Quanto à participação eleitoral, ela pouco mais alta foi do que em 2009, quando atingiu o seu ponto mais baixo. A campanha eleitoral não conseguiu uma muito maior mobilização do eleitorado. Provavelmente uma das razões prende-se com o facto de o eleitorado cedo se ter apercebido de que a estratégia de mudança do SPD/VERDES não seria vitoriosa e, portanto, não se vislumbrava alternativa à política de Merkel. Interessante de referir é também o facto de que, nos últimos 50 ano,s nunca tantos votos ficaram sem representação no Bundestag. Cerca de 1/6 dos votos entrados não estará representado. Que efeitos terá isto nos partidos? Se não é possível fazer qualquer previsão, não deixa de ser uma questão estratégica a que os partidos terão de responder.

Temos então que o campo da direita terá de analisar se a existência de três partidos nesta área lhe será benéfica ou prejudicial ou se a junção do FDP e do AfD lhe assegurará a manutenção do poder. Os votos da CDU/CSU, FDP e AfD atingem os 52% e ultrapassam os 49% de 2009 da CDU/CSU e FDP. O campo da direita ficou assim, pela segunda vez, à frente do campo da «esquerda».

Quanto à «esquerda», a questão central é outra. SPD e VERDES mantêm a sua reivindicação de únicos representantes deste campo ou a consolidação do DIE LINKE abre novas opções estratégicas? Para os VERDES coloca-se a questão, depois do fracasso da sua estratégia de aliança exclusiva com o SPD, se se vêem em primeiro lugar como partido da esquerda ou se preferem assumir um novo papel de partido entre os dois campos, que tanto pode fazer alianças com a CDU como com o SPD, substituindo o FDP na formação de maiorias.

As alemãs e os alemães reorganizaram os campos de atuação política dos partidos. Como escreve o politólogo Horst Kahrs, «A 18ª Legislatura do Bundestag será um período em que as forças do velho modelo dos partidos e as forças do novo modelo das relações entre os partidos disputarão acesos debates.»

* Manchete do TAZ no dia seguinte às eleições.

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