Por trás de um grande arquitecto Pritzker pode estar uma grande arquitecta

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Em 2004, a iraniana Zaha Hadid tornou-se a primeira mulher a receber o mais importante prémio de arquitectura do mundo – o Pritzker. Mas se Hadid e o grupo Women In Design conseguirem fazer a Fundação Pritzker mudar de ideias, a história pode mudar. Mais de duas mil pessoas, entre as quais arquitectos de renome como Hadid, Farshid Moussavi ou Hani Rashid já assinaram a petição que pede à comissão do prémio que reconheça retroactivamente a arquitecta Denise Scott Brown pelo seu trabalho, que levou à atribuição do Pritzker ao seu marido e sócio, Robert Venturi, em 1991.

A petição do grupo de estudantes de design da Universidade de Harvard foi desencadeada pelas declarações de Denise Scott Brown, hoje com 81 anos, na semana passada, durante um almoço para os prémios Women in Architecture da publicação Architect’s Journal, em Londres. Scott Brown disse, numa mensagem gravada e transmitida no evento em que era convidada honorária, que o facto de não ter sido reconhecida pela comissão de arquitectura da Fundação Hyatt, que atribui o Pritzker é “muito triste”, apelando à manutenção pelas arquitectas da sua “consciência feminista”.

“Devem-me não só um prémio Pritzker, mas também uma inclusão na cerimónia Pritzker. Saudemos a noção de criatividade conjunta”, disse ainda, reiterando que hoje ainda existem limites ao crescimento na profissão das mulheres arquitectas que, “à medida que sobem a escada” da evolução profissional, “o tecto de vidro atinge-as realmente”. Brown referia-se ao conceito que define as barreiras artificiais que se interpõem entre as mulheres e a sua progressão na carreira.

A arquitecta, casada desde 1967 com Venturi, trabalha com o marido e colega desde 1969, tendo ascendido a sócia nominal do seu atelier em 1980 – em 1991, quando Venturi recebeu o Pritzker, Denise Scott Brown trabalhava com Robert Venturi na Venturi Scott Brown and Associates há 22 anos.

O Pritzker não só é a distinção mais conceituada no mundo da arquitectura como também representa um prémio financeiro de 100 mil dólares. Venturi recebeu-o pela sua visão tanto prática quanto teórica do urbanismo.Como escreveu o júri do Prtizker em 1991, Robert Venturi “expandiu e redefiniu os limites da arte da arquitectura nesta século [XX]” tanto pela sua teoria quanto pela obra construída, citando o seu livro Complexity and Contradiction in Architecture (1966) como sendo responsável por ter “desviado o mainstream da arquitectura do modernismo”.

Mais adiante, a mesma apreciação do júri do prémio não esquece Scott Brown: “O seu entendimento do contexto urbano da arquitectura, complementado pela sua talentosa parceira, Denise Scott Brown, com quem colaborou tanto em escritos quanto em obras construídas, resultou na mudança do rumo da arquitectura neste século”. Entre os vários trabalhos conjuntos da arquitecta e do seu marido destaca-se o manifesto Learning From Las Vegas (1970), um marco da teoria pós-modernista.

Poucos dias depois da comunicação e das queixas públicas de Scott Brown, o grupo Women in Design lançou a petição em que postula que “as mulheres na arquitectura merecem o mesmo reconhecimento que os seus congéneres masculinos”, defendendo que os contributos de Scott Brown “foram seminais para que o seu sócio Robert Venturi vencesse o prémio em 1991”, classificando a não atribuição conjunta do Pritzker de 1991 como um “descuido infeliz”. “O seu papel como ‘mulher’ parece ter derrotado o seu papel como sócia igualitária quando o júri do Pritzker escolheu apenas premiar o seu marido, Venturi.”

Ao Huffington Post, Scott Brown confessou esta semana estar “extremamente feliz” com a petição e lembrou que fala de “sexismo e arquitectura” desde os anos 1970 – “pensam que não se pode ser uma mulher casada e um génio, [que] não se pode ser uma mulher e um génio”. Já em 2011 dizia ao site de arquitectura mais visitado do mundo, o ArchDaily, a sua frustração perante aqueles que visitam o atelier – “sou vista como a sua assistente, não como uma profissional por direito”. E, numa entrevista conjunta com a revista Architectural Digest Russia, quando questionados sobre o formato da sua colaboração, Scott Brown respondia sarcasticamente: “Sim, eu dactilografo e ele faz tudo o resto”. “É o que o mundo pensa”, completou Venturi.

“Exigimos que Denise Scott Brown seja reconhecida de forma retroactiva pelo seu trabalho”, lê-se ainda na petição da Women in Design, que já foi assinada por Zaha Hadid e outros arquitectos premiados, bem como por professores e responsáveis de instituições de ensino ou de museus-chave no sector como Paola Antonelli, curadora de arquitectura e design do Museum of Modern Art de Nova Iorque.

Hadid foi a primeira mulher a vencer um Pritzker, em 2004, tendo depois disso sido atribuídos dois prémios conjuntos: em 2001, aos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron; e, em 2010, à arquitecta Kazuyo Sejima e ao arquitecto Ryue Nishizawa, dos SANAA. A directora-executiva do prémio Pritzker, Martha Thorne, já respondeu à polémica e em declarações à revista do Insitituto Americano dos Arquitectos, a Architect Magazine, disse que se trata de “uma situação inusual” e que a comissão vai discutir o tema com o júri actual – o painel independente muda ao longo dos anos – na sua próxima reunião. O caso lança ainda um novo olhar para o Pritzker de 2012: o arquitecto chinês Wang Shu foi o vencedor, apesar de o seu estúdio ter sido fundado por ele e pela sua mulher, a arquitecta Lu Wenyu, com quem trabalha desde então.

O caso está a ser discutido nas publicações da especialidade e nas caixas de comentários e na página de Facebook da petição, em que os signatários justificam o seu apoio à revisão do prémio de 1991.

Joana Amaral Cardoso in “Público”, 02/04/13

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