«A Disputa dos Historiadores» à portuguesa

Na Alemanha Ocidental, durante os anos 80, com especial incidência em 1986/87 desenrolou-se um aceso e violento debate sobre a singularidade do Holocausto e a questão do seu papel na formação da identidade histórica da RFA. Esta controvérsia, que ficou conhecida com o nome de «Historikerstreit» (A Disputa dos Historiadores) ou «Habermas-Kontroverse» (Controvérsia Habermas), iniciou-se com um texto do historiador Ernst Nolte em que ele apresenta o Holocausto como uma reação dos nazis às medidas de extermínio dos gulags soviéticos. Esta tese e outras idênticas foram fortemente criticadas por Jürgen Habermas, considerando-as «revisionismo», com o objetivo de renovar uma «consciência nacional alemã» através do «branqueamento do seu passado».

Rapidamente o debate passou para o domínio público, quer através de múltiplas cartas de leitores, quer de inúmeros artigos de historiadores, jornalistas e outros intelectuais.

Tudo isto vem a propósito da «polémica» surgida nas páginas do Público com o excelente – excelente porque solidamente argumentado – artigo de Manuel Loff sobre a forma como a ditadura salazarista é apresentada na História coordenada por Rui Ramos, e agora distribuída gratuitamente com o Expresso. A probabilidade de o «debate» atingir o nível e a intensidade da «Historikerstreit» nos anos 80 é quase inexistente. A resposta pífia de Rui Ramos, as alarvices de um tal Araújo, a prosa inenarrável de Maria Filomena Mónica e umas boçalidades de um ex-diretor do Público deixaram já compreender que nenhum está interessado em discutir as ideias – talvez por incapacidade? – mas todos estão apostados no insulto pessoal e – ai a liberdade de opinião destes liberais! – na irradiação imediata de Manuel Loff das páginas do jornal da Filomena Mónica (julgava eu que pertencia à família Azevedo…).

Bem sei que não temos nenhum FAZ, nem nenhum Die Zeit, jornais conservadores de grande qualidade, onde a polémica pudesse ter lugar. Mas a questão central é a falta de qualidade dos nossos historiadores, jornalistas e intelectuais conservadores/liberais/de direita: gostam de falar sozinhos e, democraticamente, não admitem ser criticados.

PS: Manuel Loff lembrou-me Guilherme Tell e a sua recusa em fazer uma vénia ao chapéu pendurado por Hermann Gessler na praça principal da aldeia. Chegou a altura de alguém se levantar e não fazer a vénia ao chapéu do Ramos. É por isso que os acólitos do mantra neoliberal estão tão abespinhados e querem pôr um ponto final na discussão. (PS acrescentado às 19.24)

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3 Responses to «A Disputa dos Historiadores» à portuguesa

  1. fgcosta diz:

    Este blog tem o sub título de Arte e Política. Você deve ser o verdadeiro artista…Se lá estivesse cegueira, seria também o cego

  2. Graciete Virgínia Rietsch Monteiro Fernandes diz:

    Gostei deste post.
    Manuel Loff não escreve à toa . Tem bases e argumentos.
    Cumprimentos.

  3. João Dias diz:

    Também gostei deste post.

    Cumprimentos.

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