A esquerda entre Sísifo e D. Quixote?

Sísifo, Ticiano

 

Trinta anos depois da «revolução passiva» (Gramsci) de Tatcher e Reagan, poucos duvidarão que o novo período de desenvolvimento capitalista resulta de uma combinação do utilitarismo e darwinismo económico de Hayek e Schumpeter. O neoliberalismo, resultante destas duas componentes, não só remeteu definitivamente a crise fordista para o passado, como acelerou o processo de decomposição social nas sociedades europeias.

Assistimos à liquidação do «contrato social» estabelecido no pós-guerra através da privatização, globalização e virtualização do espaço político. Na sua forma atual, a democracia representativa não é independente do Capital, mas também ainda não é o seu pau mandado, apesar da perda de soberania dos Estados – os parlamentos nacionais foram de facto substituídos pelos «mercados», isto é, por um conglomerado de 200 a 500 empresas.

Na história desta época ficará a afirmação da atual chanceler alemã, quando o Bundestag se preparava para discutir o 2º empréstimo à Grécia. Merkel defendeu que o parlamento, na votação desse empréstimo, o deveria fazer «conforme as expectativas do mercado.» Esta afirmação é todo um programa político.

As palas ideológicas do neoliberalismo obrigam a que o Estado seja visto como um misto de grande empresa e um factor prejudicial ao «desenvolvimento livre do mercado». Estes «teólogos do mercado» (Hobsbawm), que nunca perceberão a diferença entre a economia de um país e uma empresa, são os que enxameiam os gabinetes dos políticos e lhes sopram ao ouvido os mantras do «pensamento único».

O êxito da «contra-revolução neoliberal» (Milton Friedman) está à vista: uma sociedade cada vez mais desigual, em que a diferença entre ricos e pobres não para de aumentar e em que a ambição, a avareza, o egoísmo, a irresponsabilidade e o embrutecimento se tornaram nas qualidades principais da classe dominante e dos que a ela aspiram.

Numa democracia, o eleitor deveria ser o corretivo supremo deste desenvolvimento errado da sociedade europeia. Mas como podem os cidadãos compreender a situação atual se dia sim, dia sim são confrontados com o papaguear da ideologia neoliberal? No debate público não há lugar para os críticos e a sua influência na definição das políticas concretas é inexistente.

Perante esta sombria realidade não seria melhor desistir? Partir para o exílio interior? Talvez sim, e certamente muitos já o fizeram e não podem ser criticados por isso. Na verdade, sem uma dose considerável de idealismo e capacidade de sofrimento não é possível assumir quotidianamente o misto de Sísifo e D. Quixote a que a esquerda parece estar ainda condenada.

Nestes tempos neoliberais, parece que não há lugar para os sonhos coletivos de uma outra sociedade. Será que perdemos a capacidade de «imaginar o todo como algo que podia ser completamente diferente» (Adorno)? Depois de 1989 restou somente a pequena utopia individual ou o «Princípio da Esperança» (Bloch), «o sonho por um mundo melhor» é um impulso constante da ação humana?

Nos últimos decénios foram muitas as esperanças e as desilusões das utopias políticas. O problema da esquerda foi e é a derrota devastadora de 1989 não estar prevista. Por isso, para muitos, o fracasso representou o fim. Mas «o fracasso não é o fim, a ilusão messiânica é que está no fim. 1989 não é a adulteração do socialismo; 1989 é, simultaneamente, a adulteração do messianismo no socialismo e o seu evolucionismo.» (Ton Veerkamp)

A ideia central da esquerda tem origem na igualdade dos filhos de Deus e na ideia do amor ao próximo do cristianismo. A esquerda tem, de novo, de «ser realista e tentar o impossível» (Che Guevara).

Regressar às origens, contribuir para se levar de novo a sério, encontrar formas de ultrapassar o isolamento de cada um e compreender o mundo como mutável são tarefas inadiáveis.

À distopia neoliberal terá de opor a utopia socialista. Assim poderá a esquerda ter um destino diferente do de Cassandra e ter de novo «o descaramento de se querer fazer do ser humano, ser humano e assim arrebatar-lhe o espartilho de súbdito e do estrato social, supostamente desejados por Deus.» (Marx)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: