‎25 DE ABRIL  E OS NOSSOS TEMPOS 

 

À memória de Miguel Portas, 
25 de Abril de 2012

Tão novo de morrer, 
quase morrido

Tem vindo a ser matado 
por sorrisos e cega obediência,
por sustos assustados,
ou simplesmente por não ser presente
e ter sido esquecido 
na cave desta casa 

Nela nasceu erguido
entre o mais desatado e o mais belo de ser:
tanques e cravos, e casos curiosos raso a mitos,
e sérios casos de paixão a sério,
e também carne e vida,
o que de mais importa neste mundo

Repousar é de morto, e ele terá morrido:
sem exéquias sequer,
só de mentira,
está o seu corpo muito lá em baixo,
como se fosse um peso que já não:

Nem mesmo incomodar 
os números que voam, desatados,
os bárbaros que uivando sobrevoam 
o telhado da casa
e nele pousam, cruéis e confortáveis,
repousam dos seus rumos de conquista

Tão novo de morrer,
morrido quase

Quem as exéquias suas? 
Não há mural que o ressuscite aqui?
Ou chamamento novo que o congregue
de novo e em colisão 
nestas janelas?

Dos que ao seu lado viveram lado a lado,
desses o susto bom de ele nascer,
e a desobediência ao erro e ao dobrado,
dos que depois nasceram: 
a memória,
o que de mais importa neste mundo

Que esses possam dizer que não,
que ainda vive,
que é novo de morrer e ainda vive,
e que o seu funeral: coisa sem rumo

Mesmo que chova hoje, como chove,
e as nuvens se perfilem junto aos uivos,
mesmo assim pressenti-lo

Teimar que é impossível
morrer assim tão novo

Saber
que isto não pode ser assim — 

poema de Ana Luisa Amaral
Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: