«Pacote de ajuda» à Grécia: quem ajuda quem?

Merkel &Ackermann

Há uns meses, durante a discussão no Bundestag do outro «pacote de ajuda» à Grécia, Merkel fez uma afirmação que é todo um programa político. Disse que o parlamento, na votação desse pacote, o devia fazer «conforme as expectativas do mercado».

Todos os que acusam Merkel de indecisão, de ausência de uma clara linha política, de ambiguidade, fazem uma leitura superficial da sua actuação política. Merkel sabe muito bem o que quer: a sua política reforça os mercados financeiros. Neoliberal convicta, reforça o domínio dos mercados  sobre a política. Quando afirma, seguida de um coro de acólitos por essa Europa fora, de que o mais confrangedor exemplo é Passos Coelho e o seu ministro Gaspar, que se trata «de ganhar de novo a confiança dos mercados» (refere-se, claro aos mercados financeiros, não ao mercado de trabalho ou ao mercado de investimento em bens de consumo…) e submete toda a sua política a este objectivo, estabelece factualmente esta relação de dominação.

O seu credo político é claro. O Estado monetarista neoliberal amortece a crise financeira e económica transformando-a numa crise das dívidas soberanas. De acordo com o dogma, a crise tem de ser ultrapassada com a desregulação do mercado de trabalho e a redução do Estado social, diminuindo salários, pensões, reformas, subsídios de desemprego, prestações sociais. O «resgate» dos bancos, no final, será pago principalmente pelos grupos de rendimentos baixos e médios nos Estados «ajudados», mas também nos Estados «credores».

Todas as medidas tomadas têm pois este único objectivo: salvar os mercados financeiros, exactamente esses mercados que a política, em 2008, prometeu controlar e que, em 2011, afinal, reforçaram o seu controlo sobre a política. A linha política da chanceler é impor este controlo em toda a Europa. Merkel deseja uma democracia «conforme o mercado».  A diminuição das reformas à la Riester e Rürup e a redução dos salários à la Hartz, reformas iniciadas há um decénio pelo governo social-democrata/verdes, são hoje as principais exportações alemãs embrulhadas em «pacotes fiscais» ou em «reformas estruturais».  Talvez os povos venham antes a querer um mercado «conforme a democracia».

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