A História e o presente

Tibério Graco

A História não é menos complexa do que o presente, mas tem a vantagem de já ser passado, o que nos permite uma melhor visão de conjunto. Os historiadores chamam crise a situações de impasse, aparentemente sem saída («sem alternativa»), numa sucessão de meias decisões, adiamentos, em que uma crise desemboca na seguinte. E para os historiadores estas crises têm, geralmente, uma estrutura idêntica: uma pressão crescente acumula-se e, num determinado momento, rebenta o dique. Se se tivesse deixado a água sair a tempo, o rebentamento do dique poderia ser evitado, caso se tivessem tomado as decisões necessárias em tempo útil.

Na História europeia podemos encontrar, pelo menos, três exemplos evidentes deste processo: a revolução romana, a reforma e a revolução francesa, que apresentam uma estrutura semelhante. Alguns compreendem a situação e apresentam soluções que esbarram na resistência dos ricos e poderosos.

Graco procurou resolver o problema essencial da República com uma reforma agrária, mas foi impedido pelos que tinham poder, dinheiro e cargos. Não queriam abdicar dos seus privilégios, isto é, colocaram os seus privilégios acima do bem-estar da comunidade. Em Roma não se tratou, em primeiro lugar, nem da salvação da República, nem da incapacidade para introduzir reformas políticas. Tratou-se, antes de mais, de um problema social: os camponeses empobrecidos tinham de reaver, de uma maneira ou de outra, as suas terras que de forma lenta mas segura tinham passado para as mãos dos latifundiários. Houve uma série de tentativas de resolução, de Mário e Sertório a Spartacus e César. Conduziu a um período de enorme instabilidade social, à guerra civil que teve um fim provisório com o aparecimento de um «homem forte», César, que pela força procura cortar o nó górdio. Mas César acaba assassinado, seguem-se novas guerras civis, até que um novo «homem forte», Augusto, traz a solução e funda as colónias. A República tinha acabado.

Todo este processo está relacionado com uma mudança de estrutura e mostra como uma República (ou Democracia) falha quando não é capaz de ultrapassar a crise chamando os ricos e poderosos às suas responsabilidades.

Massacre do dia de S. Bartolomeu, François Dubois

A Reforma também pode ser compreendida de forma semelhante. Uma das suas causas foi o comércio de indulgências, um negócio com a fé. A enorme carga financeira sob um pretexto religioso foi uma disputa que tomou uma dimensão considerável no séc. XV e a que os concílios reformistas de Pisa e Basel não deram resposta satisfatória: os privilégios dos mais poderosos sobrepuseram-se a uma solução para o problema, até que Lutero encerrou o assunto e a unidade da Igreja se estilhaçou.

As três Ordens

Na Revolução Francesa, a bancarrota do Estado anunciou-se muito antes, porque as despesas da Corte, ou seja do Estado, eram astronómicas, a nobreza e o clero não pagavam impostos e existia um enorme fosso entre riqueza e pobreza. Várias tentativas de reforma – de Turgot a Necker ou Calonne – contaram sempre com a feroz oposição do rei, da nobreza e do clero, até que a bancarrota se tornou inevitável e chegou a Revolução.

A crise contemporânea também tem os seus principais responsáveis naqueles que possuem o dinheiro e o poder. E alguns também têm apresentado soluções para o saque a que está submetida a maioria da população. A História talvez nada nos ensine, mas mostra-nos onde estes processos terminam. Brecht também sabia que as revoluções têm lugar nos becos sem saída.

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