A(s) esquerda(s) e o dilema estratégico: à espera do tiro do Aurora?

Margarida Dias Coelho

 Em 2009, nas eleições para a Assembleia da República os partidos de esquerda alcançaram 1.005.056 votos. Para este resultado contribuíram os sensacionais 9,82% do BE, que passou a 3ª força e elegeu 16 deputados, mais um do que o PCP.
Aparentemente este seria o melhor ponto de partida para assumir desafios adiados: a discussão sobre objetivos, estratégia e programa, já que os processos de esclarecimento de conteúdos são fundamentais para a eficácia política – ainda para mais porque um partido de esquerda tem a vida muito mais dificultada do que os seus concorrentes à direita.
Contudo, não foi esse o caminho seguido. O BE pagou nas urnas em 2011 (perdeu quase metade dos seus eleitores) o puro tacitismo, o oportunismo político e os zig zagues estratégicos que caracterizaram a sua prática política. A política faz-se de objetivos a curto, médio e longo prazo. E a visão a longo prazo não é propriamente mobilizadora. A possibilidade de debater estas questões fundamentais e assim despertar o interesse e adesão das pessoas às propostas políticas da esquerda foi, portanto, desperdiçada.
Ultimamente as razões porque tem marcado presença nos media resumem-se a questões pessoais. A imagem de um partido dividido sobre objetivos e caminhos a seguir não se ultrapassa nem com meros apelos à «unidade», nem com acionismo. A questão central não é a discussão entre oposição pura e dura e criar condições para se tornar um partido «do arco de poder», como alguns dos seus militantes parecem fazer crer. Trata-se, antes, de identificar as transformações em curso e em como pode(m) a(s) esquerda(s) ter capacidade ofensiva. Em 2009 o BE aproveitou da opção do PS de Sócrates por políticas mais ou menos neoliberais nas questões fundamentais do trabalho, educação e saúde. Isto agora mudou. O PS, verbal ou realmente, vai movimentar-se, para já, na oposição, depois de ter aberto a porta à direita neoliberal mais radical.
O dilema estratégico em que se encontra o BE, e de certa forma também o PCP, evidencia-se no – justíssimo – protesto contra a política dos governos Sócrates, em simultâneo com a perda de legitimidade do PS que atingiu o clímax com a assinatura do programa da «troika», amarrando o PS ao desastre económico e social neoliberal.
Enquanto a(s) esquerda(s) mantêm as conhecidas formas de luta e protesto, os conflitos que fazem mexer a sociedade desenrolam-se fora da lógica por si interiorizada. Mas se a(s) esquerda(s) perderem a perspetiva da enorme deslocação operada na relação de forças, o juramento da «velha linha» de combate também não ajudará. Este conflito caracteriza, parece-me, o atual debate.
Como é possível que a sem dúvida existente indignação sobre o desemprego, a redução salarial, o corte nas prestações sociais, não se tenha traduzido num aumento de votação na esquerda? Esta é a questão decisiva a que urge procurar responder.
A situação é, na realidade paradoxal. Mas é a partir desta realidade que a esquerda tem de encontrar o seu projeto alternativo ao «capitalismo real», se quer sair do gueto em que se encontra e não defender miragens keynesianas como objetivo último de visão de sociedade. Ou ficar condenada à espera do tiro do Aurora.

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