Resistir, Protestar: «15.O / A Democracia sai à rua». 15h Marquês de Pombal

Gerhard Richter, Verde-Azul-Vermelho 789-38, óleo s/tela, 1993

Para amanhã, 15 de Outubro, estão convocadas manifestações em 719 cidades e 71 países contra os abusos do capitalismo financeiro. Parece que as pessoas estão finalmente a acordar para se manifestarem contra uma política defensora dos interesses dos mercados financeiros e para recordar que elas existem para além da sua condição de pagadores das dívidas resultantes da especulação. Esperemos que o que se iniciou a 15 de Maio em Madrid e que nas últimas semanas alastrou pelos EUA se possa transformar mundialmente num Outono de resistência. Na Europa e em Portugal, depois das medidas ontem anunciadas pelo manga de alpaca neoliberal que desempenha as funções de primeiro ministro, há também potencial de protesto.

Desde 2008 que os governos de Berlim a Washington juram regular os mercados financeiros, fechar os casinos em que se tornaram os mercados financeiros e responsabilizar também financeiramente os que têm lucrado com a especulação desenfreada. Mas às palavras não se seguiram atos, nem estes se vislumbram: as relações entre a política e a indústria financeira são demasiado estreitas. A cada dia que passa com o casino aberto, assistimos como os «mercados» financeiros controlam a política. A confiança na democracia vai assim sendo corroída.

Temos assistido impassivelmente como o sistema financeiro se serve da política e dos políticos e como a «troika» impõe uma política «austeritária» profundamente destrutiva, que destrói a vida de milhões de pessoas e rouba as perspetivas de vida a gerações. A política de austeridade não parará com a Grécia ou Portugal. Desde há anos que os bancos e os especuladores manipulam a política conforme lhes dá na gana.

O Estado monetarista neoliberal, cujo expoente máximo é o Governo alemão, amortece a crise financeira e económica transformando-a numa crise das dívidas soberanas. De acordo com o dogma, tem de ultrapassar a crise com a desregulação do mercado de trabalho e a redução do Estado «social»: reduzindo salários, pensões, reformas, subsídios de desemprego, ris, etc. O objetivo é que, no final, o «resgate dos bancos» seja pago principalmente pelos grupos de rendimentos médios e baixos – principalmente nos Estados «ajudados», os devedores, mas também nos credores.

A política financeira encontra-se em crise permanente. O facto de os especuladores poderem empurrar países inteiros para a bancarrota ao especularem, através dos «mercados», com a união monetária é a «explosão nuclear» da política. Mas, curiosamente, a perceção pública da situação é outra. Em Portugal só o PCP e o BE criticam de forma fundada o sistema financeiro, críticas que, porém, os media ignoram ou diabolizam.

Como há três anos, assistimos nesta crise financeira dos Estados, que mais não é do que uma consequência da crise de 2008, ao completo falhanço dos meios de comunicação. Assumem, sem uma ponta de espírito crítico, a interpretação da crise financeira como «crise da dívida soberana» consequência das «gorduras do Estado», interpretação iniciada pelos bancos que com a Grécia e Portugal encontraram um bode expiatório e de novo obrigam os cidadãos a pagar as suas políticas especulativas. E os Governos e a política entram de novo no jogo.

Cada vez mais pessoas percebem que só elas próprias poderão estragar este jogo, que só a pressão dos cidadãos poderá obrigar a que seja dado o apito final. Por isso apressam-se, os media e a opinião publicada, a criticar estes movimentos, porque não têm objetivos concretos. Esta crítica é, contudo, extemporânea. O movimento que se iniciou e alastrou em 1968 também não tinha um programa alternativo pronto a ser usado e sabemos hoje como foi indispensável para modificar profundamente a estrutura das sociedades europeias.

Nos EUA, sindicatos e intelectuais como Paul Krugman, Joseph E. Stiglitz, Michael Moore, Noam Chomsky ou Naomi Klein já se solidarizaram com o movimento «Occupy Wall Str.». Em Portugal são principalmente os chamados «movimentos alternativos» que até ao momento se solidarizaram com o movimento 15 O. Onde andam os Sindicatos? Onde anda a inteligência crítica? Onde andam os artistas e intelectuais críticos? Honra seja feita a José Mário Branco, Jorge Palma, os Homens da Luta e os Terrakota.

Para já é importante o mínimo denominador comum deste movimento: a exigência de uma forte e eficaz regulação dos mercados, a redução do poder dos bancos e a exigência de uma política que não defenda os interesses de uma minoria poderosa financeiramente, mas sim da grande maioria, que tem pago os desmandos criminosos desta minoria, e cujo interesse em segurança social e bem-estar para a maioria tem sofrido tratos de polé na última década.

Não pode ser tarefa de um movimento de protesto tão heterogéneo apresentar programas detalhados de atuação – o protesto aponta a direção. O caminho terá de ser proposto para debate por aqueles que possuem o necessário conhecimento crítico.

Estamos perante um processo de debate que não terminará amanhã. Mas este processo poderá ser também o calcanhar de Aquiles do movimento: poderá ser esmagado pela evolução nos «mercados» financeiros e na política e empurrado para a resignação. O que se está a passar no norte de África poderá servir de bússola de análise sobre o destino destes movimentos «abertos»

A situação é muito séria e o tempo urge. São argumentos não contra o protesto, mas antes pelo contrário a favor de dirigir este potencial para objetivos concretos e procurar alargar a sua base de apoio. Amanhã às 15h no Marquês de Pombal. A Rua do Patrocínio saúda o movimento 15.O

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Uma resposta a Resistir, Protestar: «15.O / A Democracia sai à rua». 15h Marquês de Pombal

  1. rosa maria gomes diz:

    fiz seguir para o meu blogue.

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