O cinismo de Merkel e dos neoliberais: a proletarização da «classe média»

Os dados ontem divulgados pela Fundação Hans-Böckler não só causaram grande impacto na Alemanha como esclarecem uma das principais causas da crise existente na zona euro e sublinham o profundo cinismo da chanceler alemã ao afirmar repetidamente que na sua opinião é preciso «resolver os problemas de raiz reduzindo o endividamento e melhorando a competitividade.» A política de dumping salarial exercida pela Alemanha na última década é a grande aniquiladora de qualquer possibilidade de «melhoria de competitividade» na Europa como há muito vêm afirmando vários economistas alemães.

Os salários desenvolveram-se de forma muito mais fraca do que os dividendos e lucros do capital entre 2000 e 2010. Em média o salário bruto teve uma redução real de 4%, ou seja depois de retirado o valor da inflação. A desregulação do mercado de trabalho – uma das designadas «reformas estruturais» – contribuiu fortemente para esta situação. A descida no poder de compra dos salários mais baixos ainda é mais brutal: entre 16% a 22% menos do que em 2000.

A distribuição salarial é hoje muito mais desigual do que há 10 anos. A classe média diminui, a concentração da riqueza aumentou sensivelmente. Em 2007, os dados mais actuais, o décimo mais rico da população possuía 61% da totalidade da riqueza, enquanto a 70% dos menos pobres correspondem 9%. O coeficiente de Gini era de 0,799 tendo aumentado bastante desde o ano comparativo de 2001.

A realidade desmente o discurso falacioso dos neoliberais de que só com um aumento de produtividade se podem aumentar salários e são necessárias as «reformas estruturais» para aumentar a competitividade e assim a riqueza. Os dados da última década na Alemanha provam o contrário. Aumentou a produtividade, é altamente competitivo e, porém, assistimos a uma diminuição dos rendimentos do trabalho e a um aumento dos rendimentos do capital, sem que se vislumbre o investimento deste na criação de emprego. Enquanto a Alemanha não alterar a sua política salarial não há solução para a crise na zona euro. A esquerda alemã tem de fazer o seu «trabalho de casa».

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