PISA, IGNORÂNCIA E CINISMO

 

 

Os resultados do PISA produziram entrevistas de contentamento de José Sócrates, ressurreições de Maria de Lurdes Rodrigues e David Justino, notícias acríticas e comentários entre a ignorância (à esquerda) e o cinismo (à direita). Recordemos a manchete do Público de 8 de Dezembro: “Relatório da OCDE: Alunos portugueses foram os que mais progrediram” e mais abaixo, provincianamente: “Número de países que Portugal ultrapassou: Ciência 4; Matemática 2; Leitura 5”.

Que os neoliberais reduzam a educação aos “resultados”, à “eficácia” do sistema de ensino traduzida na sua adequação às necessidades da economia, compreende-se. Que a esquerda não questione esta mudança de paradigma, não questione a legitimidade destes testes e embarque no mesmo raciocínio é inaceitável.

Metas de aprendizagem, exames nacionais, provas de aferição, simplificação curricular e de conteúdos, avaliação internacional, PISA, PIRLS, TIMSS as escolas transformadas em agrimensoras e, por sua vez alinhadas em rankings. Já só se ensina para os testes, para o outcome e a performance nos rankings internacionais. Pura orientação para os resultados.

Mas quem legitima a avaliação técnica das escolas? Pois claro, agora são necessários directores, de preferência formados em gestão e com experiência na “economia”. Aí sim, temos as melhores Governance-Schools. Só para organizar os exames nacionais, estudos comparativos, testes, provas, lá terão que se deixar de fazer algumas visitas de estudo, excursões e outras luxuosas festas pedagógicas.

Três grandes multinacionais de avaliação, empresas privadas, controlam os standards técnicos. Estas grandes empresas organizaram, no mercado da educação, o PISA por encomenda (e pagamento) da OCDE: CITO holandesa, ETS americana e a Australian Council of Educational Research para só referir as mais importantes. Não foram eleitas por ninguém. Só têm de prestar contas ao departamento de estatística da OCDE. Isto diferencia-as dos Ministérios de Educação por esse mundo fora. Apesar de tudo ainda é preferível uma forma de controlo público do que uma legitimação através do poder no mercado da avaliação das escolas, que em Portugal se transformou, antes de mais, na avaliação de desempenho dos docentes.

Não se trata, portanto, de conhecimento, de educação enquanto desenvolvimento da personalidade e enquanto processo pessoal entre o professor e o aluno. Em vez disso trata-se da formação da própria força de trabalho, da produção quase industrial de competências.

A esquerda tem, então, que regressar a esses monótonos temas da política educativa e procurar desconstruir a falácia do paradigma neoliberal na educação, de que a política de Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues é exemplar e cuja “prova do nove” será feita daqui a dez anos.

Recordemos então aos mais esquecidos esses monótonos temas:

1º Todas as crianças e jovens têm o direito a deixar a escola com as capacidades de que necessitam não só para o mercado de trabalho mas também para participar na vida pública, ou seja, o domínio da língua nos seus níveis mais elaborados. Com conhecimento sobre a sua origem e para onde pode ir o mundo, com a capacidade de reflectir para onde deve ir. Para isto são necessários standards e controlo de resultados, mas legitimados democraticamente e não por uma qualquer fundação ou cartel de empresas privadas.

2º Precisamos de uma escola pública para todos em vez de “concursos de excelência”. Uma escola em que os fracos (alunos, escolas, professores) sejam especialmente apoiados e assim todos possam desenvolver as suas características e não só uma elite.

3º A direcção das escolas deve ser democraticamente eleita e constituída principalmente por pedagogos.

O PISA conduziu a uma normalização do conceito de educação e transformou as aulas em treinos para testes. Testa-se, compara-se, avalia-se, normaliza-se. O PISA é um sinónimo de mudança de paradigma, disfarçado na falácia da “reforma”. O PISA é um novo modelo de condução do sistema educativo. Só é importante o que é mensurável: que quantidade de informação consegue o aluno retirar do texto? Consegue interpretar correctamente um gráfico de barras? Não se trata de conhecimento, essa coisa com pouco préstimo que se desactualiza rapidamente. Muito menos de um conceito tão vago como Educação, porque em ultima ratio sempre subjectivo e que não se deixa nem medir nem normalizar. O conceito de “competência” tornou-se na ideia condutora dos currículos e programas. Já não é a matéria que determina a aula, nem sequer um determinado conteúdo relacionado com uma capacidade, prática ou metódica, mas sim competências universais que não se encontram ligadas a determinados conteúdos. As competências são definidas na perspectiva do “capital humano”, ou seja, as características necessárias às capacidades para o mercado de trabalho.

Na verdade pode duvidar-se se um alto nível de competências tem realmente esse efeito. Na Finlândia, a campeã do PISA, o desemprego entre os jovens atinge os 20%. Contudo o PISA é aceite internacionalmente e assim os seus autores têm o poder de ditar no que se devem transformar as escolas, passando ao lado de todas as comissões e especialistas que pensem de maneira diferente. México ou Coreia, Suécia ou Japão, Alemanha ou Portugal – o output das escolas é comparável internacionalmente, em todo o lado se usa a mesma medida.

Quando for feita “a prova dos nove” desta mudança de paradigma, há um resultado desde já seguro: a mediocridade humana dos especialistas que defenderam estas “reformas”.

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One Response to PISA, IGNORÂNCIA E CINISMO

  1. Apesar de alguns aspectos perversos do PISA, as suas conclusões animam-nos a prosseguir o esforço pela (re) introdução generalizada das humanidades nos currícula. Com efeito, o desempenho em leitura daqueles que, na família, convivem assiduamente com bens da cultura clássica (visitar museus ou galerias de arte, ir ao teatro, à opera…ter acesso à literatura) é geralmente excepcional ( PISA 2000, p.158). Confrontar, por exemplo, com as posições de Nussbaum e Sallenave.

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