“Vocês são as próximas vítimas”, disse Theodoros Pangalos, mas o problema não está no sector público…

Joseph Ackermann, Deustche Bank

“Na mão dos Banqueiros

A Grécia com o seu défice orçamental agudo não é o problema, mas sim a ambição sem escrúpulos de lucro dos Bancos. Ganham muito bem com as falências da EU.

A crise financeira de bancos privados tornou-se numa crise fiscal de Estados soberanos. Na Islândia ainda foram os Institutos Financeiros, especuladores selvagens, da ilha glacial que quase arrastaram o país para a bancarrota. No profundo sul europeu não foram os bancos gregos, mas sim os Global Players da Alemanha, EUA, Grã-Bretanha e Suíça, que financiaram um endividamento extremo. E porquê? Porque o Estado grego trata de desviar do seu produto nacional um fluxo constante da dívida para os credores privados.

O negócio com os títulos de dívida dos Estados é altamente lucrativo para os grandes bancos privados e o seu séquito de Agências de Rating. Mas pressupõe que os Estados se endividem, por isso a Goldman Sachs ajudou fortemente ao endividamento grego. Só assim se pode garantir as dívidas, juntá-las em papéis estruturados e negociá-las com lucro nos mercados globais. Os lucros na ordem dos mil milhões anunciados pelos Ackermanns das praças financeiras globais desde a crise de 2008 comprovam o seu êxito. E o cidadão normal pergunta-se de onde terá vindo a tanta prosperidade depois da crise financeira fortemente penalizadora, que lhe custou centenas de milhares de milhões de Euros. A resposta é: da Grécia, tolinho, apesar de não só de lá. Para isso o país com 2,5% do PIB da UE é demasiado pequeno.

Por outras palavras: sem a dívida de Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha (o Grupo PIIGS) e mais alguns outros países no mundo o modelo de negócio dos Bancos não podia florir. Os banqueiros não teriam nenhuma razão de júbilo sobre os lucros, prémios e bónus. As acções de uns exigem a dívida de outros. Isto é tão simples que até um porta-voz do Governo alemão devia compreendê-lo.

No entanto, – e isto já é mais difícil de apreender – as dívidas têm de ser fortemente servidas, para que os títulos de dívida mantenham o seu valor e não coloquem bolor tóxico nos balanços dos Bancos. Quando se duvida de um serviço de dívida sem fricções, nasce o pânico no “jogo da Bolsa da Bancocracia moderna”, já sabia Karl Marx, quando se debruçou sobre o papel da dívida do Estado na acumulação primitiva. Hoje Agências privadas observam a “performance” dos PIIGS e propõem, quando o serviço de dívida está em causa, uma taxa de risco nos juros da dívida do Estado, um “Spread”. Assim aumentam os lucros dos Bancos e o peso da dívida do Estado torna-se sempre maior.

As dívidas públicas são assim a material de que se faz o lucro dos Bancos – enquanto os Estados puderem pagar. Os Governos podem cuidar melhor da dívida do que os devedores privados, porque dispõe do monopólio dos impostos e podem reduzir a despesa pública nos salários da função pública, nas despesas sociais ou nas infra-estruturas. Quando há resistência os Governos podem socorrer-se do monopólio da violência do Estado, como já aconteceu centenas de vezes na recente história económica mundial. Por que há-de tão ser diferente na Grécia, do pagamento de reparações pela Alemanha depois de 1919 ou 2001 na Argentina? Porque a zona euro exige cooperação? Então em 1991 dever-se-ia ter negociado outras regras em Maastricht. Mas não se negociaram, por isso só a Alemanha em 2008 apresentou um lucro de 47 mil milhões de Euros na balança comercial com os PIIGS. Daqui resultam cerca de 550 mil milhões de Euros de dívidas destes Estados para com bancos alemães. Os Bancos alemães lucram muito bem com os falidos mediterrânicos da EU. Dão abrigo a 16,4 mil milhões de euros de dinheiro negro grego, o que explica uma parte do défice do Estado, e podem assim compensar perdas que tiveram de assumir ao amortizar dívidas de outros bancos na crise financeira. Portanto, nada de atirar pedras à Grécia, já que a totalidade da Banking Community tem telhados de vidro. Os Bancos usam o dinheiro, que os orçamentos públicos e o BCE lhes colocaram à disposição, para comprar aquelas obrigações de dívida que os Estados tiveram de assumir para financiar os custos imensos da salvação dos Bancos. Os Bancos estão seguros destes bons negócios no carrossel financeiro iniciado por eles, mas acelerado pelos Governos. É malandro quem vê aqui maldade. É como numa tragédia grega. Ninguém na UE quer a bancarrota grega, mas todos são acossados pelo destino, neste caso pelos mercados financeiros. Têm de seguir regras que conduzem ao desastre. Ajudar a Grécia? Diminuir a dívida? Isso ainda funcionou em 1990, na união monetária alemã. O Tratado de Lisboa conduz ao oposto: a UE utiliza a sua força política para obrigar a Grécia soberana a pagar a dívida aos Bancos que, com a sua especulação, elevaram o valor dos juros da sua dívida pública.”

Elmar Altvater, Freitag, 20.02.2010.

(tradução pg68)

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