Igreja, fenómeno pós moderno?

O debate sobre o abuso sexual de menores na Igreja indicia que estamos perante uma mudança de paradigma. Os meios de comunicação internacionais descrevem de forma surpreendentemente objectiva as novas revelações e o facto de o tema incómodo se manter desde há semanas nas primeiras páginas significa que a pressão é demasiado grande para que tudo continue como até aqui. O aumento constante do número de casos de abuso sexual revelados e as saídas da Igreja parecem um countdown para essa instituição que se considerava segura como um rochedo. Que se passa? Tudo indica que nada disto tem a ver com os factos em si: os casos de abuso são antigos e há muito que se sabe que eles existem. De repente o discurso altera-se, são nomeadas coisas que já eram conhecidas mas inomináveis. O Papa, na sua última Pastoral, apelou à oração, mas não servirá de muito.

Provavelmente, a mudança constatada na opinião pública terá a ver com o estatuto de “Superstar” da Igreja nos últimos anos. Por razões que ainda estão por identificar, mas que certamente não tiveram que ver com razões espirituais profundas, o Catolicismo, incluindo os Papas João Paulo II e Bento XVI, foram um dos temas preferidos dos media nos últimos anos. Agora a Igreja assiste ao outro lado da moeda: é sabido que os ajustes de contas com os fenómenos pós modernos são seculares.

Desenvolveu-se na sociedade, à margem dos ensinamentos da Igreja, uma relação mais aberta com o desvio da norma, para o que muito contribuiu o movimento Queer e contra a SIDA. Muito do que antes se considerava perversão homossexual, é hoje tratado no mainstream e não deve deixar de influenciar o discurso sobre o abuso sexual.

Apesar de se saber que o abuso sexual de crianças e jovens pode acontecer em qualquer lado, as escolas e os colégios privados tinham uma aura de lugar de segurança e acolhimento. Conseguirá a Igreja recuperar dos escândalos que não por acaso a atingem no seu ponto mais fraco, a sua forma de relacionamento com a Sexualidade? Que deverá fazer? O celibato não é a causa do abuso sexual, mas a metáfora para o seu silêncio. Acabar com o celibato? Condenar exemplarmente os abusadores? Tratar abertamente o tema Sexualidade? Autorizar as mulheres a serem ordenadas?

O debate está aí e não vai ser afirmando que a Igreja está a ser vítima de uma campanha negra que ele vai parar. Curioso, porém, que de acordo  com os estudiosos destes assuntos, poucas alterações houve no número de casos nos últimos anos e o fenómeno mantém-se quase inalterado independentemente de ser tema de discussão ou não: a violência e o exercício de poder são um problema estrutural muito mais profundamente enraizado do que qualquer procura de culpados – pedófilos, família, instituições de ensino – pode compreender e aceitar.

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