Bullyng e o Zeitgeist

O trágico desaparecimento do Leandro trouxe para as páginas dos jornais e aberturas dos telejornais o tema da violência escolar, bullyng ou mobbing como é descrito em língua inglesa, essa forma de terror de darwinismo social. E logo se multiplicam os especialistas afirmando coisas espantosas como “a escola é um cenário privilegiado para combater os actos de violência” e, os mesmos responsáveis que exigem sempre mais eficiência e eficácia da parte dos alunos, exigem agora cinicamente mais “cooperação”. Políticos da direita à “esquerda moderna” que nos últimos anos incentivaram ou assistiram impassíveis à erosão do Estado social e da sociedade, queixam-se agora de falta de solidariedade e espírito de entreajuda. E acenam como solução a alteração do Estatuto do Aluno. Ridículo se não fosse trágico. Mais uma vez se exige da escola aquilo que ela, sozinha, não pode dar.

O que é, também, a escola, hoje, na realidade? Por um lado um lugar de concorrência, em que os professores decidem sobre futuras oportunidades de vida de jovens, por outro onde os jovens, hoje, assumem eles próprios a concorrência do reconhecimento, que para muitos é ainda mais importante do que boas notas. Nesta concorrência escolar os alunos apropriam-se também das ferramentas para singrar de qualquer maneira no mercado de trabalho e na vida profissional: aprendem que só não pertencem aos perdedores se contribuírem para tornar outros perdedores, o que tanto inclui denegrir como invejar. Os próprios alunos, hoje em dia, acrescentam à concorrência na aprendizagem, a sua própria concorrência do reconhecimento. Todas as formas brutais da bazófia e de bullyng – diferenciadas de acordo com o género dos envolvidos – estão por isso de acordo com o Zeitgeist. Rouba-se, chantageia-se, agride-se e discrimina-se, destrói-se equipamento e exigem-se “provas de coragem” brutais. A miudagem aprendeu que o ser humano sem presunção e ambição nada é, que com uma boa porção de presunção aguenta melhor as exigências da escola, da família e da rua – e assim avançou a presunção para o objectivo real da educação. Cada vez mais jovens traduzem este objectivo para si como querendo ser o “Superstar” e se não do país, pelo menos da escola ou da turma.

Não devia por isso admirar que pessoas, cujas cabeças estão cheias de problemas de reconhecimento não resolvidos, os carreguem consigo até terem de começar a mostrar aos que o rodeiam provas da sua auto-estima: exercitando o poder através da violência.

Não, “a escola [não] é um cenário privilegiado para combater os actos de violência”! Como seria de esperar a escola e as salas de aula são espelhos da nossa sociedade onde, cada vez mais, o mais brutal vence. Como é que o bullyng não haveria de estar na ordem do dia nas escolas? As crianças e os jovens imitam o que os media e os adultos ensinam. O mundo “lá fora” cada vez mais brutal, o clima de concorrência na escola, a hostilidade entre os alunos completam-se e reforçam-se. Isto provoca irritação, medo e muita raiva.

Numa escola adestrada para a eficiência do mercado, com professores trabalhadores sazonais receosos e conformados, directores omnipotentes, quadros de excelência e prémios monetários, os alunos também não terão motivos para rir. Talvez só a reintrodução dos castigos corporais tornasse ainda mais duro o clima escolar.

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One Response to Bullyng e o Zeitgeist

  1. Maria Fernanda diz:

    Também me custa a entender como é possível incutir nos alunos o espírito de cooperação, solidariedade e até compaixão (por que não dizê-lo?) quando todos os dias os políticos , fazedores de opinião, analistas, economistas e por aí fora incitam à competição , à agressividade e a avaliações de desempenho completamente paranóides , labirínticas e obscuras. Tudo isto a propósito do suposto mérito. E ainda quando se concentram poderes numa só pessoa, que nem é eleita pelos seus pares, como é o caso do Director de uma Escola.

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