O comércio estetiza o sexo de uma forma que lhe retira qualquer perigosidade. O dinheiro é um meio de troca e a sua magia reside no facto de tornar as mercadorias equivalentes. A intuição para o que é diferente embota, parece que hoje tudo se pode tornar mainstream, desde que haja capital suficiente. O dinheiro não fede e sexo lavado em dinheiro cheira a CK, independentemente das práticas.
O princípio do comércio é o princípio do esbanjamento. E nada melhor do que a máxima homossexual do esbanjamento de sexo sem o risco da procriação. Principalmente os gays têm sido nos últimos anos um grupo cortejado e caracterizam a estética publicitária actual. E a cena homossexual adora deixar-se fotografar: por muito absurdo que pareça, a comercialização da homossexualidade provocou um empurrão tão poderoso na integração, como nenhuma iniciativa política teria podido alcançar… Desde que cumpram determinadas regras, sejam belos, abastados, saudáveis psíquica e fisicamente, lésbicas e gays têm exactamente o radical chic que hoje pertence aos sexualmente atractivos. Para Slavoj Zizek “ a perversão já não é subversiva”.
A norma e o desvio parecem dar-se as mãos e parece ser esta a única grande reivindicação do movimento LGBT em Portugal. Ao nível da aparência a diferença parece ter sido anulada, já que ser diferente é entretanto completamente normal e de alguma forma somos todos um pouco diferentes. Contudo a diferença funciona, apesar das inúmeras entrevistas e reportagens sobre como a vida dos homossexuais é tão igual e tão diferente como a dos heterossexuais. Esta retórica tem como objectivo tranquilizar e é insidiosamente falsa, já que nega a diferença que ela própria pressupõe. Enquanto os homossexuais forem chamados homossexuais, são diferentes e fazem algo diferente dos heterossexuais. Apesar de desvio sexual ser hoje compatível com o mercado, as lésbicas e os gays de esquerda deveriam reflectir sobre a diferença que continuam a representar. E por isso a reivindicação do casamento deve ser vista, à esquerda, com o maior dos cepticismos.