Radical Chic II

Interpretar a profusão de „gayfriendly“ nos meios de comunicação e nos meios governamentais como a prova de que o ser homossexual se torna cada vez mais vulgar é compreender só uma pequena parte da realidade. O fenómeno interessante é a perversão progressiva do heterossexual. Ela reside no princípio de uma economia que se orienta para o consumo e já não para a produção. Sexo é uma forma de vender um produto. Com a sexualização do comércio e a comercialização do sexo a perversão passa a ser admitida. O comércio precisa da sensação do que é especial. Por isso os jornais adoram apresentar os temas da vida normal de gays e lésbicas.

O comércio estetiza o sexo de uma forma que lhe retira qualquer perigosidade. O dinheiro é um meio de troca e a sua magia reside no facto de tornar as mercadorias equivalentes. A intuição para o que é diferente embota, parece que hoje tudo se pode tornar mainstream, desde que haja capital suficiente. O dinheiro não fede e sexo lavado em dinheiro cheira a CK, independentemente das práticas.

O princípio do comércio é o princípio do esbanjamento. E nada melhor do que a máxima homossexual do esbanjamento de sexo sem o risco da procriação. Principalmente os gays têm sido nos últimos anos um grupo cortejado e caracterizam a estética publicitária actual. E a cena homossexual adora deixar-se fotografar: por muito absurdo que pareça, a comercialização da homossexualidade provocou um empurrão tão poderoso na integração, como nenhuma iniciativa política teria podido alcançar… Desde que cumpram determinadas regras, sejam belos, abastados, saudáveis psíquica e fisicamente, lésbicas e gays têm exactamente o radical chic que hoje pertence aos sexualmente atractivos. Para Slavoj Zizek “ a perversão já não é subversiva”.

Assim se transforma o peso de ser diferente num êxito comercial. Mas a ironia é que quanto mais se comercializa o diferente, mais ele desaparece. Esta ausência das velhas contradições em que o privado se torna político de uma forma muito diferente da imaginada pelos revolucionários de 68, em que cada um deve ser feliz à sua maneira, esta tendência mole dos últimos anos reflecte-se de forma impressionante nos símbolos: o  triângulo rosa gay e o duplo símbolo feminino lésbico deram lugar à bandeira do arco-íris. Esta é alegre, sem conteúdo, não ofende ninguém e encontra-se em todo o lado: canecas, brincos, esferográficas, tapetes. A bandeira arco-íris é o melhor exemplo de como um símbolo impolítico pode fazer política.

A norma e o desvio parecem dar-se as mãos e parece ser esta a única grande reivindicação do movimento LGBT em Portugal. Ao nível da aparência a diferença parece ter sido anulada, já que ser diferente é entretanto completamente normal e de alguma forma somos todos um pouco diferentes. Contudo a diferença funciona, apesar das inúmeras entrevistas e reportagens sobre como a vida dos homossexuais é tão igual e tão diferente como a dos heterossexuais. Esta retórica tem como objectivo tranquilizar e é insidiosamente falsa, já que nega a diferença que ela própria pressupõe. Enquanto os homossexuais forem chamados homossexuais, são diferentes e fazem algo diferente dos heterossexuais. Apesar de desvio sexual ser hoje compatível com o mercado, as lésbicas e os gays de esquerda deveriam reflectir sobre a diferença que continuam a representar. E por isso a reivindicação do casamento deve ser vista, à esquerda, com o maior dos cepticismos.

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