Radical Chic I

O que mais impressiona na discussão sobre o casamento gay em Portugal, sendo ele supostamente uma bandeira “de esquerda”, é a ausência de posições críticas sobre a instituição casamento com as suas implicações sociais e os seus aspectos históricos e culturais.

Todos os militantes (de esquerda) do movimento LGBT luso desconhecem a crítica diferenciada de historiadores e sociólogos na instrumentalização social da instituição casamento e o seu carácter repressivo? Ou quem pensa de maneira diferente do mainstream homo-lésbico e não vê na aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo esse “dia histórico” ou “o 25 de Abril de gays e lésbicas” ou “um passo imenso na modernização do sistema legal português”, um “salto civilizacional” ou um “gesto emancipatório” não tem possibilidade de expressar as suas críticas nas ILGA(s), Clubes Safo e afins e não consegue chegar aos meios de comunicação social?

Questão que seria interessante esclarecer: qual a origem desta posição aparentemente unanimista no movimento LGBT e a inexistência de críticos ao casamento gay à esquerda?

Não cabendo aqui fazer nenhuma síntese sobre a história do casamento, é importante recordar que Philippe Ariès, Eduard Shorter e Arlette Farge, por exemplo, demonstraram, com as suas análises históricas, que o desenvolvimento da família nuclear, com as suas componentes afectivas, foi uma estratégia para disciplinar e integrar o trabalhador no processo de industrialização do século XIX. O resultado trouxe também uma clara divisão do trabalho e a respectiva determinação do papel a desempenhar por homens e mulheres. Vários teóricos de esquerda analisaram até que ponto este modelo é responsável pela reprodução das condições actuais e como se encontra orientado para a disciplinação e repressão (pelo menos estava antes da crise da família).

No final dos anos 90, quando esta discussão se desenrolou em vários países da Europa Ocidental o movimento homo dividiu-se em dois campos políticos, tendo discutido à exaustão o tema do casamento gay.

Nos últimos anos, como os desfiles Pride o demonstram, os receios de contacto entre o mundo heterossexual e homossexual diminuíram dramaticamente. Por essa Europa fora muitos políticos assumem abertamente a sua orientação sexual e não é por isso que deixam de ser eleitos ou de assumir cargos governamentais. Aquilo que começou por ser manifestações de protesto contra a discriminação e opressão, é hoje transmitido pelas cadeias de TV e entrou nos circuitos turísticos das cidades.

Que aconteceu nos últimos 20 anos? O que é hoje “normal” ?

Freud considerava “perverso” o “desvio do instinto” numa perspectiva sexual. É desnecessário dizer que não existe um indivíduo completamente “normal”. Normal é o consenso em que a maioria se revê.

Houve sempre dualidade na “perversão” dos homossexuais: por um lado o sofrimento de estarem à margem, de não poderem usufruir do estatuto que a normalidade confere, que a sociedade organizada heterossexualmente disponibiliza aos seus elementos heterossexuais; por outro uma promessa de felicidade, já que a “perversão” também significa a possibilidade de se opor ao sofrimento da normalidade, de ser diferente. Este seria o potencial crítico da homossexualidade.

O movimento homo dividiu-se, então, de acordo com esta dualidade de sentimentos – o desejo de normalidade e o receio dela – , em dois campos políticos. Enquanto um campo, invocando os direitos de cidadania exigia tratamento igual para gays e lésbicas e, portanto, também a possibilidade de se casarem, o outro considerava o casamento uma armadilha. De acordo com a sua argumentação o casamento conduz a uma “heterossexualização dos Homos” e a sua defesa faz-se à custa de outras formas possíveis de relação.

Que em Portugal não tenhamos assistido a nenhum debate entre pró e contra casamento homo, impediu-nos de nos aperceber que este é um combate de aparências, já que não é possível afastar a suspeita de que a instituição casamento só na sua fase de decadência é concedida, em nome da modernidade e avanço civilizacional, aos gays e lésbicas. Tem-se a impressão de que lhes é oferecido o casaco puído da existência normal burguesa. Faz parte da lógica da coisa: as sociedades ocidentais assumem outras formas de discriminação, o item “relações sexuais/organização da reprodução” enquanto normativo social já não é assim tão importante.

A verdadeira afronta da homossexualidade reside no facto de com ela não ser possível procriar por meios “naturais” e de ela pôr em causa os clichés dos papéis a desempenhar por homens e mulheres. Porém, os bens “reprodução” e “género” já não são as preciosidades inabaláveis da sociedade pós-moderna. Desde que é possível separar a reprodução do corpo feminino e os papéis se tornaram flexíveis, também se esboroa o muro de defesa contra (a sedução?) (d)a homossexualidade.

(cont.)

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2 Responses to Radical Chic I

  1. dark-silva diz:

    Independentemente da vossa opinião sobre o casamento homossexual espreitem o vídeo do ultimo debate

    http://pararir.com/casamento-gay/

  2. Estou de acordo com o teor do artigo! A esquerda esqueceu Engels?

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