Para 2010, o fim da paciência

“Hegel observa numa das suas obras que todos os factos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.” Assim inicia Marx o Iº Capítulo de O 18 de Brumário de Louis Bonaparte. A frase também se poderia aplicar para descrever estes arranjos pós-modernos que diariamente encontramos nos meios de comunicação: combinam-se elementos históricos com elementos actuais, mesmo que uns não se coadunem com os outros, mas de alguma maneira tudo é autorizado. Atente-se na actual crise económica: muitos descrevem-na como um género de repetição da crise 1929-1933,Sócrates não se cansa de clamar que é a “pior crise dos últimos 80 anos”. Mas exactamente em comparação com a crise de 29-33 esta parece bastante inofensiva: muita gente rica perdeu uma considerável quantidade de dinheiro na Bolsa. Em consequência os media fazem eco da sua forma de agitação social: clientes do BPP barricam-se nas instalações do Banco, juram que foram enganados por gestores e especuladores e clamam pela salvação do Estado. Contudo isto é só a continuação, à nossa pequenina escala, do tumulto iniciado há um quarto de século nos EUA: a “Shareholder Revolution”. Os accionistas tornaram-se insatisfeitos com os seus empregados, os gestores. Até aí, tinham conseguido dirigir as empresas de forma dinâmica e alcançado lucros simpáticos, mas agora os co-proprietários queriam mais e uma coisa completamente diferente: não só dividendos anuais, mas sim aumentos bruscos nas cotações das acções, para as venderem rapidamente. Para isto precisavam de um novo tipo de gestor, mais parecido com um broker do que com os antiquados “capitães da indústria”. E se uma vez por outra o negócio não corresse bem, qual era o problema? Os Bancos davam crédito, os juros eram baixos. Agora que a bolha estoirou, os mandantes criticam o seu pessoal, acusam-nos de ambição desmedida, cobiça e outras malvadezas. É a luta de classes entre a Burguesia: sedes de Bancos ocupados e clientes barricados.

E a economia real! Lê-se e ouve-se que a crise do crédito a afectou e isso custa postos de trabalho, por isso também é de recear agitação social. Contudo as massas financeiras que produzem e depois deixam rebentar a bolha, não foram inventadas por nenhum especulador, mas alimentadas pela economia real. Durante décadas reduziram-se os salários e as receitas do Estado. O dinheiro que não foi aí utilizado, desapareceu na especulação. Quem, por exemplo nos EUA, não recebia o suficiente pôde endividar-se e comprar um carro estrangeiro. Os créditos foram negociados na Bolsa.

Quando agora a indústria automóvel está em dificuldades, não são os banqueiros cobiçosos os culpados mas sim a sobreprodução. Os que agora fazem sermões contra os especuladores e agiotas desviam as atenções de um facto doloroso: não há capital a menos, mas sim capital a mais, ainda que no lugar errado – na indústria automóvel e na finança.

Durante anos as pessoas aguentaram, sem grandes reclamações, uma política económica que lhes foi muito prejudicial. Agora a cada passo se tropeça em artigos, curiosamente quase todos de autores da direita neoliberal, avisando contra a “agitação social” que aí vem e relacionando a violência com todos aqueles que lutam pelo seu posto de trabalho. O discurso sobre as consequências da crise mostra que grande parte dos políticos e dos comentadores de serviço receiam o fim da paciência de grande parte da população. A quem serve esta associação entre violência e “agitação social”? Este método é velho. Caso os “de baixo” realmente se tornassem incómodos, isto não agradaria certamente aos ricos e à classe média. Nenhum Cidadão de 2009 quer beber uma bica com os Sansculottes de 1793 ou os nem sempre bem vestidos da Comuna de 1871.

Quem tem medo de perder o seu posto de trabalho, começa por ficar quieto. Esperemos que o que vier a seguir não seja determinado pela retórica do pessoal político. Quem é tomado por estúpido, não tem forçosamente de o ser. Bom 2010!

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: