A “escola nova” socrática

O Público publica hoje um artigo no mais puro eduquês hi-tech da autoria de um tal Francisco Jaime Quesado, Gestor do Programa Operacional Sociedade do Conhecimento. Sob o título “O Magalhães não é apenas um concurso”, Quesado debita frases grávidas de nulo significado como “O Magalhães constituiu um passo marcante na afirmação por parte do Governo português de uma aposta estratégica na Educação como o grande driver de mudança colectiva da sociedade e recentragem no valor e competitividade como factores de distinção na economia global.” Não tenhamos dúvidas: nem o Conselheiro Acácio diria melhor. Mas a pérola das pérolas é “ Na “escola nova” de que o país precisa, (…) Tem de se ser capaz de, desde o início, incutir nos jovens uma capacidade endógena de “reacção empreendedora” perante os desafios de mudança suscitada pela “sociedade em rede””.

Que a Educação é, apesar de todo o deslumbramento driver, mais do que a produção de membros eficientes para o processo económico não passa pela cabeça desta gente. Pensamento crítico é tanto um ideal humanista como de uma Educação abrangente. Mas como poderá ter um jovem a possibilidade de vir a ter pensamento crítico se o objectivo é incutir-lhe desde a mais tenra idade “uma capacidade endógena de “reacção empreendedora”? Quem quer adaptar o sistema de ensino a supostos interesses económicos colhe exactamente o que semeou: tecnocratas e idiotas especializados que não conseguem ver para além da borda do prato.

Em todo o caso não faria mal nenhum aos Quesados deste país visitarem a “escola nova” socrática. Retirados os 50 milhões de euros à ASE para financiar o Magalhães, os critérios de atribuição de apoios tornaram-se mais selectivos. Os Quesados poderiam então constatar como os jovens incutidos de “reacção empreendedora” se sentam nas salas de aulas com temperaturas a rondar os 6-8 graus, de gorro enfiado até às orelhas, cachecóis e luvas a olhar para os quadros electrónicos e para os computadores (que não funcionam), porque muitos deles chegaram ao final do 1º período sem os manuais necessários: o apoio da ASE não chegou e em casa não há dinheiro. E o que dizer dos horários reais e fictícios dos professores, mão-de-obra barata para responder a tudo e com cada vez menos condições para ensinar? Deve ser porque “vivemos a era da cooperação em competição” (o homem descobriu a quadratura do círculo…) que estes “actores do conhecimento” têm de “internalizar” a degradação das condições de trabalho, como a gravosa falta de pessoal auxiliar e o respeitinho pelo sr. ou sra. Director(a).

A “escola nova” que esta gente pretende impingir em nome da modernidade é de confrangedora indigência conceptual. Mas o que mais dói é ser feita em nome da “esquerda moderna” pelo Partido Socialista.

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