O erro é de Russell?

O propósito da filosofia é começar com algo tão simples ao ponto de não parecer digno de mencionar, e acabar com algo tão paradoxal que ninguém o acreditará. (Russell, “A Filosofia do Atomismo Lógico”, 1918)
Já vi esta frase repetida muitas vezes, e merece ser repetida, como muitas coisas maravilhosas que Russell escreveu na sua vastíssima e importante obra, tanto filosófica quanto de intervenção social e política. Mas esta afirmação é um disparate.

É um disparate se for mal compreendida. E é mal compreendida sempre que se pensa que o que Russell afirma é próprio da filosofia, distinguindo-a de outras actividades humanas.

Na verdade, começar pelo banal e acabar no inverosímil é a única maneira de proceder. A ilusão metodológica é precisamente pensar que há maneiras de começar em grande, sem ser a partir das banalidades mais simples. E essa é uma das razões pela qual a pseudociências e a filosofia mal feita nada fazem que seja cognitivamente relevante.

Até nas artes começamos pelo banal e acabamos numa sinfonia. Começamos pelo solfejo. Pelo treino físico dos dedos. Pela atenção à postura do corpo. Coisas banais, portanto.

Nas ciências e nas matemáticas começamos por observações e raciocínios muito banais. Tão banais que parece que nem vale a pena começar por aí, mas antes pelas ideias tonitruantes, depois de se subir à montanha com o estômago vazio e se ter descido com a cabeça ainda mais vazia.

O que há de peculiar na filosofia é a segunda parte da afirmação de Russell: depois de começar pelo banal, chegamos a ideias que ninguém quererá aceitar. Na ciência, chega-se a ideias que as pessoas aceitam. Porquê a diferença?

Aplicação tecnológica, nada mais. Fosse a física exactamente o que é, ou a astronomia, ou a matemática, mas sem aplicações práticas que dão dinheiro e conforto, e ninguém aceitaria a autoridade dos cientistas. É a autoridade dos cientistas que faz a generalidade das pessoas aceitar ideias quase ininteligíveis de tão complexas — sobre átomos, o Big Bang, a dinâmica de fluidos, números imaginários, etc. Mas a autoridade dos cientistas só foi conquistada por via do dinheiro e da aplicação prática, e não pela razoabilidade das teorias. Para a generalidade das pessoas não há qualquer diferença entre uma afirmação sobre quanta e uma afirmação sobre espíritos invisíveis — excepto que no primeiro caso há aplicações tecnológicas que funcionam e dinheiro que corre, ao passo que no segundo tudo se fica pela conversa fiada.

As teorias filosóficas têm menor grau de aceitação popular do que as científicas não por qualquer defeito epistémico que tenham, mas por falta de poder social. Mas em ambos os casos se começa com o banal e se acaba com o contra-intuitivo e o inverosímil e o difícil de compreender.

Desidério Murcho

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: