A Guerra contra as Mulheres

Cindy Sherman, s/título 188, 1989, foto, 110,5 x 166,40 cm Exposição na Martin-Gropius-Bau

Nos últimos dias têm sido divulgados dados e notícias sobre a violência contra as mulheres, nomeadamente os crimes violentos perpetrados por actuais ou ex-namorados ou actuais ou ex-maridos.

O assassínio de mulheres é a face mais visível da constante e universal violação silenciosa do artº 1 da Declaração dos Direitos Humanos: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”.

Mulheres que são diariamente humilhadas, fechadas, estranguladas, espancadas, violadas não são notícia. Faz parte da natureza do fenómeno. A violência doméstica acontece em todas as regiões do mundo e através de todas as classes sociais. É esta sua dimensão universal que favorece a tendência de a aceitar como um facto normal e imutável Até as próprias vítimas – e este é o aspecto mais grave – partilham desta perspectiva.

O horror da violência contra as mulheres acontece principalmente no aconchego do lar. Susan Moller Okin, renomada filósofa política, (foi professora de Ciência Política na Universidade de Stanford), para alguns a inventora do estudo de teoria política feminista, falecida em 2004, escreveu: “O lar é – pelo menos em tempos de paz – o lugar mais perigoso para as mulheres.”

Também em Portugal o corpo das mulheres é campo de batalha, como podemos concluir das notícias vindas a público nos últimos dias. Sabe-se, por investigações efectuadas em vários países europeus que as piores feridas corporais acontecem nas relações; quanto maior é a dependência financeira e existencial mais tempo as mulheres se mantém nessas relações; quanto mais longa é a relação mais desce o grau de inibição da violência e a violência torna-se mais excessiva; as mulheres raramente se dirigem aos médicos, organizações de apoio a mulheres ou à polícia, porque sentem vergonha em se apresentar como vítimas ou denunciar o marido/companheiro/pai/irmão.

Apesar de a violência contra as mulheres constituir uma das mais graves violações dos Direitos Humanos, continua a ser aceite por uma parte significativa da sociedade como sendo um delito de cavalheiros. O texto de Miguel Gaspar na revista Pública do passado domingo é um bom exemplo desta deplorável realidade. Ao contrário do que aí se pretende afirmar os homens que matam, batem, violam não o fazem porque amam ou amaram. Quem ama ou amou não mata, viola, espanca. Todos os estudos afirmam que, na violência doméstica, se trata do exercício de poder e controlo sobre as mulheres e as suas vidas. Os homens utilizam uma larga paleta de meios de controlo e dominação nas suas relações. Normalmente as mulheres não sofrem só uma forma de violência, mas sim múltiplas formas de violência física e psíquica.

O dia 25 de Novembro é o dia internacional do ”Não à violência contra as mulheres”. Com ele pretende transmitir-se um sinal político de que não é da esfera do privado o que acontece nas paredes do “Lar, Doce Lar”. A violência doméstica tem de ser compreendida como o fenómeno social que é. “O privado é político.”

A violência doméstica, as violações, a prostituição são as várias faces da guerra contra as mulheres: o corpo feminino conquistado por uns como um troféu, por outros instrumentalizado politicamente. A violência sexual não é só uma forma perversa de fazer a guerra, mas também uma experiência quotidiana traumática e assustadora de milhões de mulheres e crianças no mundo. O número de mulheres violadas e abusadas sexualmente na infância é brutal. As vítimas sofrem sentimentos de humilhação, impotência, vergonha e culpa. Sobreviver a estas experiências significa durante muitos anos pensamentos suicidas, insónias, medos aterradores, isolamento e a permanente perda de confiança nos outros. As experiências da II Guerra Mundial, da Guerra do Vietname (This is my rifle/This is my gun/One is for killing/The other’s for fun), dos bordéis japoneses na Guerra do Pacífico, a guerra na Bósnia e no Kosovo demonstram que cada homem e cada soldado é um violador em potência.

Quando a violência contra as mulheres é endémica e se revela através da economia, da política e de práticas sociais, quando as mulheres assumem a parte de leão do indispensável trabalho social e se mantêm o recurso de trabalho mais barato do capitalismo é mais necessário do que nunca que uma consciência crítica articule as necessidades e dificuldades das mulheres e mobilize acções colectivas que combatam as estruturas de violência inibidoras das suas vidas. Apesar da estratégia imunizadora do “Politicamente Correcto” neoliberal, que estigmatizou conceitos como emancipação, igualdade, feminismo, o Feminismo continua a significar a representação radical dos interesses das mulheres, análise do poder e das estruturas de dominação patriarcais, a colocar as mulheres enquanto critério e bitola das mudanças e emancipação.

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7 Responses to A Guerra contra as Mulheres

  1. Primeiro: não há guerra nenhuma contra as mulheres, a nao ser no sentido (figurado) em que também há uma guerra co0ntra os homens. A expressão é pura propaganda política, e da mais destituída de escrúpulos.

    Segundo: pois o que é grave é que só a violência contra as mulheres seja divulgada, deixando-se num vergonhoso silêncio a violência contra os homens, as crianças e os velhos.

    Terceiro: não é inocente que se pretenda apresentar como sinónimas as expressões “violência doméstica” e “violência contra as mulheres”. Mais propaganda vergonhosa, ao serviço, não de um projecto de igualdade, mas de um projecto de poder.

    Quarto: Apresentar a violência contra as mulheres como instrumento de controlo e de poder é uma das “verdades indiscutíveis” do fundamentalismo feminista. É “indiscutível” porque é indispensável como premissa quando a conclusão a que se pretende chegar é a legitimidade de discriminar contra os homens. Mas esta “verdade indiscutível” não passa duma mentira, a não ser no sentido banal de que toda a violência, exercida por quem for sobre quem for, está ligada ao poder ou ao controlo. “Todos os estudos” que afirmam esta mentira seleccionam os dados para chegar a uma conclusão previamente estabelecida.

    Quinto: “O privado é político” é outro slogan. Mais propaganda.

    Sexto: a guerra é violenta. So what? O grande argumento contra a guerra nao é que escolhe vítimas, como insinua o autor do artigo: é que não as escolhe.

    Sétimo: “Cada homem é um violador em potência” é um insulto aos homens que estes não são obrigados a aceitar calados. A mesma lógica permitiria dizer que cada mulher é autora, em potência, duma falsa acusação de violação.

    Oitavo: Não sei se a violência contra as mulheres é endémica e duvido muito que o seja especificamente. Aceitar isto implicaria aceitar que a violência em geral é excepcional e aberrante, o que nao é de todo em todo o caso.

    Nono: A economia, a política e as práticas sociais são geralmente violentas contra todos e não especificamente contra as mulheres. Isto não significa que não existam estruturas sociais e ideológicas que ataquem especialmente as mulheres, assim como as há que atacam especialmente os homens, os negros, os judeus, os estrangeiros, os imigrantes e praticamente cada grupo de seres humanos que seja possível imaginar.

    Décimo: todas as ideologias identitárias, incluindo o fundamentalismo feminista mas não se limitando a ele, são geradoras de violência e de injustiça.

    Décimo primeiro: “o feminismo continua a significar a representação radical dos interesses das mulheres”. Das mulheres, não: de algumas mulheres. Alguns destes interesses são legítimos, outros ilegítimos; e estes são prosseguidos, não só em detrimento dos direitos dos homens, mas também dos direitos das muheres.

    Nota: não cheiro a cavalo, não cuspo para o chão, não digo palavrões, não bato em ninguém (nem homem, nem mulher, nem criança, nem velho), não maltrato animais. O que estou, é farto de ser apresentado como culpado de todos os males do mundo só pelo facto de ser um homem.

  2. […] isso porque li, hoje, agora, uma resposta de José Luis Sarmento, em resposta ao post A Guerra Contra as Mulheres. Não vou analisar cada ponto colocado, mas copio a resposta para conhecimento.  É sempre bom […]

  3. asinus diz:

    Pois não são culpados por todos os males do mundo! Quem afirmou tal coisa?! Mas são culpados pela violência contra as mulheres ou são os marcianos?

  4. Ana diz:

    Só gostava de fazer uma pergunta ao sr josé sarmento:

    quantos homens morrem devido a violência física por parte das mulheres? E ainda fala que é tudo propaganda política quando as estatísticas claramente mostram a disparidade entre homens e mulheres que perecem devido a acções homicidas. E dizer que não há controlo da mulher através de meios nada correctos, seja física ou psicologicamente é quase tão grave como afirmar que a escravatura nunca existiu ou o holocausto nunca aconteceu.

  5. Ana, não sei quantos homens morrem devido a violência física por parte das mulheres. Nem você sabe, pelo menos no que respeita a Portugal, porque nunca ninguém se quis dar ao trabalho de fazer esses estudos. Quando se diz que é uma minoria, é só palpite. Nos EUA há estudos neste sentido – cerca de 270 só nos últimos dez anos – conduzidos segundo todos os protocolos científicos da falsificabilidade, arbitragem pelos pares e publicação em revistas idóneas. Consulte-os e terá uma surpresa.

    As estatísticas mostram, na verdade, a disparidade entre homens e mulheres que morrem devido a acções homicidas: o número de homens é muito, muito maior. A decisão de chamar “violência doméstica” ao assassínio duma mulher por um homem mas de não dar esse nome ao assassínio dum homem por uma mulher é uma opção puramente política e completamente arbitrária.

    Eu nunca disse que não há controlo das mulheres através da violência: o que disse é que a violência serve sempre para controlar alguém, seja o autor ou autora quem for e seja quem for o agredido ou agredida.

    Ainda sobre as estatísticas: nos países onde elas existem, está demonstrado que a maior parte das vítimas de violência doméstica não são os homens nem as mulheres, mas sim as crianças. Não são conhecidas excepções a esta regra. E também está estabelecido sem qualquer dúvida que nestes casos a maior parte dos agressores são mulheres. Negar isto é que é equivalente a negar o Holocausto.

  6. Correcção: quando me referi a 270 estudos nos últimos dez anos estava a falar de cor. Na realidade, foram feitos entre 1975 e o momento actual, como se pode ver aqui:

    The facts on DV are simple; among them are these: (1) women are as likely as men to commit domestic violence; (2) women are about twice as likely as men to be injured by domestic violence; (3) women are about twice as likely as men to report being a victim of DV; (4) women are somewhat more likely than men to initiate domestic violence, i.e. they’re not just responding to what the man did and (5) the strongest predictor of whether a woman will become a victim in a DV incident is that she started it (moral: ladies, if you don’t want to get hit, don’t hit).

    Peço desculpa por não incluir o link; fá-lo-ei no meu blogue assim que tiver oportunidade de fazer e publicar a tradução deste texto.

    Over 270 separate studies done by dozens of different researchers since 1975 have concluded exactly those things and many more. As recently as October, 2008, a study of dating violence among students at the University of Florida found that the young women were slightly more likely to have engaged in dating violence than were the young men. In 2007, an 11,000-person study by the Centers for Disease Control again found that,

    Almost 24% of all relationships had some violence, and half (49.7%) of those were reciprocally violent. In nonreciprocally violent relationships, women were the perpetrators in more than 70% of the cases. Reciprocity was associated with more frequent violence among women (adjusted odds ratio [AOR]=2.3; 95% confidence interval [CI]=1.9, 2.8), but not men (AOR=1.26; 95% CI=0.9, 1.7). Regarding injury, men were more likely to inflict injury than were women (AOR=1.3; 95% CI=1.1, 1.5), and reciprocal intimate partner violence was associated with greater injury than was nonreciprocal intimate partner violence regardless of the gender of the perpetrator (AOR=4.4; 95% CI=3.6, 5.5).

  7. Segunda correcção: com o corta e cola, o comentário anterior saiu-me todo misturado. Aqui vai de novo, desta vez direito (espero).

    Quando me referi a 270 estudos nos últimos dez anos estava a falar de cor. Na realidade, foram feitos entre 1975 e o momento actual, como se pode ver aqui:

    The facts on DV are simple; among them are these: (1) women are as likely as men to commit domestic violence; (2) women are about twice as likely as men to be injured by domestic violence; (3) women are about twice as likely as men to report being a victim of DV; (4) women are somewhat more likely than men to initiate domestic violence, i.e. they’re not just responding to what the man did and (5) the strongest predictor of whether a woman will become a victim in a DV incident is that she started it (moral: ladies, if you don’t want to get hit, don’t hit).

    Over 270 separate studies done by dozens of different researchers since 1975 have concluded exactly those things and many more. As recently as October, 2008, a study of dating violence among students at the University of Florida found that the young women were slightly more likely to have engaged in dating violence than were the young men. In 2007, an 11,000-person study by the Centers for Disease Control again found that,

    Almost 24% of all relationships had some violence, and half (49.7%) of those were reciprocally violent. In nonreciprocally violent relationships, women were the perpetrators in more than 70% of the cases. Reciprocity was associated with more frequent violence among women (adjusted odds ratio [AOR]=2.3; 95% confidence interval [CI]=1.9, 2.8), but not men (AOR=1.26; 95% CI=0.9, 1.7). Regarding injury, men were more likely to inflict injury than were women (AOR=1.3; 95% CI=1.1, 1.5), and reciprocal intimate partner violence was associated with greater injury than was nonreciprocal intimate partner violence regardless of the gender of the perpetrator (AOR=4.4; 95% CI=3.6, 5.5).

    Peço desculpa por não incluir o link; fá-lo-ei no meu blogue assim que tiver oportunidade de fazer e publicar a tradução deste texto.

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