Capitalismo: a maioria é contra

A Pirâmide do Capitalismo, 1911

No âmbito do aniversário dos 20 anos da queda do muro de Berlim, a BBC fez uma sondagem cujos resultados são deveras interessantes: o grau de insatisfação com o capitalismo não tem parado de crescer. A sondagem, pensada como uma contribuição para a festa de júbilo do Capitalismo triunfante, apresenta resultados que pouco contribuirão para a auto-satisfação do Capitalismo.

Entre Junho e Setembro, a Globescan entrevistou cerca de 30.000 pessoas em 27 países, entre eles cinco Estados da Europa Ocidental e cinco da Europa de Leste, os EUA e o Japão, o chamado grupo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) e ainda dois Estados da América Central, Canadá, Austrália, Paquistão e a Turquia.

O maior número de partidários do Capitalismo encontra-se nos EUA (25%) e no Paquistão (21%) – o maior número de opositores na França (43%), México (38%), Brasil (35%) e Ucrânia (31%). A Alemanha é um caso curioso: só 8% pensam ser possível substituir o Capitalismo, mesmo nos EUA há mais partidários de uma mudança de sistema. Contudo 3 em 4 alemães são da opinião que o actual regime económico tem debilidades sérias que devem ser ultrapassadas através de reformas. Em França só dois partilham esta perspectiva.

Na Alemanha, 16% consideram o Capitalismo invencível, menos do que nos EUA, mas mais do que na Grã-Bretanha (13%), ou França (6%). A sondagem demonstra também que quase ninguém lamenta o desaparecimento do “Socialismo real”. A maioria dos países não lamenta também a queda da URSS. Excepções são a Rússia, Ucrânia e Índia onde um grupo considerável tem uma outra opinião.

Em 17 dos 27 países, a maioria (média de 56%) quer uma maior regulação por parte dos Governos. A intervenção do Estado na economia é desejada no Brasil (87%), França (76%), Espanha (73%), China (71%) e Rússia (68%).

Pelos vistos já ninguém fala no “fim da história”, vinte anos depois da derrota histórica do socialismo real. Depois de uma série de crises financeiras, crashs na Bolsa, brutal desemprego, a saúde do Capitalismo não vai nada bem. Muitos oportunistas da classe política declararam-se do dia para a noite keynesianos e praticam um clientelismo sem tréguas. A ideologia neoliberal já só é abertamente assumida por uma minoria de privilegiados salariais que da política só esperam a palavra de ordem “Enriquecei!”

Só uma minoria – cerca de 11% da população mundial – acredita ainda na estranha fé  de quase todos os economistas, comentadores e jornalistas e de muitos políticos, que a “economia de mercado” funciona livremente na perfeição e que qualquer tentativa de regulação deste maravilhoso sistema só perturba o seu livre desenvolvimento. Pelo contrário, cerca de ¼ da população mundial está convencida que o capitalismo é um sistema económico irreformável e irreparável e que deve ser substituído. Uma pequena maioria, 51%, considera que a reprodução capitalista está seriamente abalada, mas que é possível reanimá-la através de reformas do sistema e mais regulação.

Os críticos do Capitalismo, com consequências diferentes, constituem uma maioria de 74%. Em 2005, o mesmo Instituto, numa sondagem idêntica em 20 países, ainda encontrou uma maioria de 63% que considerava o Capitalismo o melhor de todos os sistemas.

Que se pode concluir de todos estes dados? Regulação sim, distribuição da riqueza sim, propriedade pública dos meios de produção sim mas com reservas. Um sistema económico misto tem mais defensores do que o capitalismo “puro”.

Os resultados da sondagem “Política económica na Crise”, que se realizou na mesma altura, reforçam estas conclusões.

A múltipla crise mundial, cujas dimensões nem o Governo, nem a maioria dos aparelhos partidários compreendeu, é também uma crise de fé. O Capitalismo foi sempre também uma cultura e uma religião. Ela é ensinada aos incrédulos preferencialmente no local de trabalho através de lavagens ao cérebro diárias e, sempre que necessário, com “o fogo e a espada” . Em especial, o fanatismo dos convertidos, ex-marxistas e ex-comunistas, que se encontram bem representados na política, na economia e no jornalismo, representa um dos problemas mais difíceis de ultrapassar.

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