As duas faces [da Burguesia], por Ton Veerkamp

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Luis Bunuel, O Charme Discreto da Burguesia (1972)

“O Liberalismo não vê os seres humanos como Pessoas, mas sim Indíviduos. Uma Pessoa é um ser humano, que vive no seio de outros seres humanos e através deles deixa entrever a sua inconfundível individualidade (per-sonat). Um indíviduo é um ser humano, contando que se diferencie de outras pessoas, de acordo com a velha definição escolástica: indivisum in se, divisum ab omnio alio, indivísivel em si, divísivel de todos os outros. Por isso Pessoa e Sociedade são condições prévias uma da outra, Indivíduo exclui a sociedade. Quando se fala de sociedade, então trata-se só da soma de todos os indíviduos. A ideologia burguesa do Liberalismo é, antes de mais, Individualismo. Eis a razão porque a conhecida citação dos anos 80 da Primeira-Ministra britânica M. Tatcher é a quinta essência da ideologia burguesa: “There is no such thing as the social; there are only individuals and families”, não existe algo como a sociedade, unicamente indivíduos e famílias (a última palavra uma concessão ao seu conservadorismo, Tony Blair e o seu Ghostwriter Antony Gidens irão acabar com ela). Esta frase não é a estupidez de uma besta; M. Tatcher verbaliza só a base do Utilitarismo, como se chama o Liberalismo na Grã-Bretanha. Sociedade não existe, por princípio, no Liberalismo.

Na verdade a burguesia não foi só liberal. Ela foi, dada a sua origem medieval, um estrato entre os senhores laicos e clericais (Nobreza e Clero) e os servos produtores mas não-livres, numa sociedade principalmente agrária, o estrato dos Nem-Senhores-Nem-Servos. Ela não era só, mas maioritariamente, um estrato mercador. Por isso tem desde o início duas faces, a face da liberdade e a face do negócio. No conflito entre liberdade e negócio, ganha quase sempre o negócio, como canta, concluindo, o fabricante de carne Pierpont Mauler na peça de Brecht A Santa Joana dos Matadouros.

Os grandes empresários dos países industrializados do Norte dirigem-se para países como a China, não apesar de, mas exactamente porque é uma ditadura, que nem sequer autoriza um rasto de representação autónoma dos interesses dos trabalhadores. As prédigas de domingo dos políticos sobre os “direitos humanos” durante as visitas de Estado à China são um ritual sórdido. A inexistência de direitos humanos é exactamente o desejado pelas delegações de empresários nas suas comitivas. Se o conceito de “classe dominante”, entretanto declarado proibido, teve um sentido, então hoje. Sem entraves e sem quaisquer escrúpulos, as elites económicas burguesas declaram o seu direito à liderança incontestada e não planeiam nada com a Democracia e os Direitos Humanos, tão pouco como os seus avós que prepararam o caminho a Hitler. A sociedade e a política têm que se lhes sujeitar. Que se desenrole um aparente debate sobre “standards éticos”, transparência sobre os ordenados dos manager e moderação não é mais do que uma pirraça cruel. Ética, standards éticos, são neste contexto, ridículos[i]. Pierpont Mauler também é defensor de standards éticos, desde que não custem nada. Compra a libertação da sua alma com Sponsonring e abate-o como despesa de publicidade nos impostos.

Contudo, a segunda face não é completamente coberta através da máscara da liberdade do negócio. Regularmente toma a palavra. Iremos, em John Maynard Keynes e John Rawls, conhecer dois representantes daquela burguesia, para a qual liberdade não significa só liberdade de negócio, mas sim uma visão global de sociedade. Também se pode interpretar Karl Marx como um representante consequente da segunda face da burguesia, porque acabou consequentemente com as meias-verdades e contradições das visões burguesas da sociedade. O Liberalismo não é uma construção homogénea. Para além disso, o vocábulo tem um significado diferente nos EUA e no continente europeu. Na Europa o Liberalismo tornou-se, entretanto, quase exclusivamente na ideologia dos homens de negócios que não querem ser incomodados por considerações sociais e ainda menos quando o Estado os obriga. Este Liberalismo é hoje hegemónico e é dele que temos principalmente de falar. É a ideologia de quase todos os partidos políticos na Alemanha, também e exactamente da nova social-democracia.”


[i] O Parlamento holandês votou em 2002 a Comissão Tabaksblat com o objectivo de fazerem propostas para moderar os salários dos Manager de topo. As suas propostas foram elevadas pelo parlamento à condição de standards éticos. Os salários continuram a aumentar desde 2002, só se esconderam as melhorias nas aposentações, indemnizações, etc. O presidente Walraven dos Callcenter SNT recebeu uma indemnização na ordem das dezenas de milhões. Walraven continua chefe e conta manter-se chefe por muitos anos com o seu presente de despedida dourado, como investigou o jornal De Volkskrat (21.05.2004). Um exemplo entre centenas.

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