Auto-reflexão precisa-se…

lehrer2Reformas na educação só terão êxito quando os professores mostrarem estarem abertos às mudanças e colocarem em dúvida a sua acção. Para aqueles que se candidatam ao prémio de “melhor professor” e acreditam que ser “professor-titular “é o justo reconhecimento do seu mérito é bom lembrar que perante a crise em que Sócrates I (e os sinais indicam que também Sócrates II) lançou a educação em Portugal não podem daí lavar as suas mãos e actuar como se não tivessem nada a ver com o assunto.

Está assim na ordem do dia uma profunda auto-reflexão biográfica do professor, desde a escolha consciente da profissão até à preparação quotidiana das aulas, aspecto da profissão cada vez mais descurado porque as “reformas” estão aí para impedir qualquer preparação/reflexão.
No contexto de uma auto-reflexão profissional pelo menos 16 questões deveriam ser discutidas:

1. Por que me tornei professor?

2. Como preparo as aulas?

3. Como ultrapasso os chamados „erros de planeamento“ ?

4. Sou influenciado por que teorias pedagógicas e conceptualização científica?

5. Como ajo com os chamados alunos difíceis?

6. Que técnicas de interpelação e métodos prefiro?

8. Que tipos de reacção, desde o prazer à aversão ou também receio, sinto?

9. O que receio?

10. Como reajo em situações caóticas?

11. Por quem e quando me sinto provocado?

12. Onde sinto medos profundos e talvez também difusos?

13. Como uso a espontaneidade nas aulas?

14. Tenho medo da concorrência dos meus colegas?

15. Tenho medo de não cumprir o programa, os objectivos definidos?

16. Recuso o que é estranho e novo (por ex. “queres lá ver que querem descobrir a pólvora”) ?

Vejamos, por exemplo a questão nº 6 “Que técnicas de interpelação e métodos prefiro?” Em que poderia consistir a auto-reflexão de um professor? Em primeiro lugar que género de pronomes interrogativos (Quem, Quê, Porquê, Para quê, Qual, Quanto) uso com os alunos, em que situações e em que contexto? Trata-se de uma técnica de interpelação consciente ou inconsciente ou de uma atitude mental fundamental perante comportamentos e hipóteses desconhecidas? Também aprendo com a reflexão sobre problemas complexos ou no essencial coloco pseudo-questões e quero saber se ainda alguém sabe a resposta? E para isso há recompensa – notas, gomas, sorrisos de fachada – caso a resposta seja a correcta.

O professor sabe, como sempre, a resposta correcta. Não se questiona realmente, mas sim interroga alguém! Será que os alunos necessitam destes interrogatórios escolares típicos?
Arrisco uma curta resposta: os alunos não precisam de fastfood pedagógico, nem de papas já mastigadas. Assim a  escola é frequentemente pouco exigente.

Os alunos precisam do verdadeiro desafio, do problema difícil, da partida para o desconhecido. Decidem para onde vai a viagem, nenhum “capitão do ensino” pode tirar-lhe essa decisão inclusive dos erros e equívocos. Já o famoso Sr. Keuner (o pensador) de Brecht respondia à pergunta “Em que trabalha?”, “Preparo-me para o meu próximo erro.” Contudo há sempre a esperança legítima de conseguir vir a nadar neste mar de erro. Um bom professor coloca-se esta questão da auto-reflexão – sem complexos narcisistas – e questiona e questiona-se. Procura actuar nas aulas de forma criativa e inteligente. É um profissional da Educação.

Os professores precisam agora (!) de reflectir entre si e de ajuda profissional, nas escolas, de outros técnicos. Os professores deviam ser motivados, precisam de estímulos, elogios, reconhecimento social e os em início de carreira e dos escalões mais baixos também de mais dinheiro.

O bom professor, um fantasma? Nem por isso. Certamente recusou esta divisão na carreira, este inenarrável processo de avaliação e nunca lha passou pela cabeça concorrer àquele confrangedor concurso do melhor professor, ideia que só podia ter saído das cabeças dos pobres de espírito (numa perspectiva humanista) da equipa que passou pela 5 de Outubro, porque sabe que as “reformas” têm como objectivo tornar o bom professor numa espécie em vias de extinção.

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5 Responses to Auto-reflexão precisa-se…

  1. reb diz:

    Quem me dera que já pudessemos ter disponibilidade para nos dedicarmos à auto-reflexão sobre estas matérias que são muito mais interessantes que os portfolios da treta. 🙂

    Abraço,
    Reb

  2. guidaalema diz:

    “uma espécie em vias de extinção” que lutará, se adaptará com todas as artimanhas possíveis e que provavelmente não desistirá de todos aqueles que os “verdadeiros” professores respeitam e querem bem – os ALUNOS… Por eles.. estou cá,ou melhor, estamos cá

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