Carta Aberta Incompreensível para a nova/velha equipa da Educação e PS de Sócrates

102Os 4 anos e meio do consulado Sócrates-Maria de Lurdes Rodrigues & acólitos deixaram um rasto de destruição na vida das escolas portuguesas: os alunos foram abandonados, muitos professores capitularam e/ou reformaram-se, com significativas penalizações e um travo amargo de maus tratos em final de carreira, o Estado poupou nos salários dos restantes e na escola em geral, os pais [que podem] procuraram/procuram soluções no privado e o sacrossanto “mercado” exige eficácia. Com esta escola não há futuro.

O debate na opinião publicada parece ter sido determinado por aqueles que acordam banhados em suor: com 50/60 anos de novo na escola, procurar um lugar sob olhares gelados, não encontrar os livros e os cadernos na pasta, não saber a resposta às perguntas, bloquear enquanto um silêncio mortal se espalha. É quase impossível vermo-nos livres da escola. A vingança fez-se nas barbaridades escritas e ditas sobre a escola e a classe docente.

Mas não é só a boca fechada ou a cabeça vazia no momento do exame que ficaram marcados. A escola é também um reservatório de tipos e experiências existenciais em grupo, que funcionam como padrões durante toda a vida: quem não divide as pessoas de acordo com essa tipologia aprendida na infância/adolescência: marrão/marrona; cábula; bufo/bufa; bombo da festa; génio; palhaço da turma; cabeça de motim; companheiro de peito; a melhor amiga; sonhador/sonhadora. Quem é que não retira as experiências fundamentais de entreajuda, traição, ser excluído ou o prazer da pertença, desta vivência durante os anos passados na escola? E também os professores e os seus truques de consolidação de poder, com compromissos duvidosos e manias que os alunos reconhecem implacavelmente como também reconhecem os professores que se dedicam verdadeiramente – todos são incluídos no arsenal da tipologia que cada um de nós constrói. Talvez seja esta “competência social”, o principal resultado do tempo de escola. Quanto mais complexas, transparentes e emancipadoras são estas experiências, melhor para a vida. Quanto mais se esgotam no avançar às cotoveladas e na pressão de adaptação, maior a desolação.

Quem conhece actualmente alunos que gostem de frequentar as aulas, porque de uma forma geral, dizem-nos os inquéritos, gostam de “ir à escola”? Estudos mostram-nos que os alunos gostam de tudo na escola menos das aulas. Sobrevivem-lhes. Aguentam-nas porque não têm alternativas. Talvez gostem de uma ou outra disciplina, a maior parte das vezes por causa da professora ou do professor, mas sentem a falta de ser compreendidos enquanto pessoas e não só adestrados na matéria. Mas esse é o objectivo das políticas educativas (socialistas?!?) dos últimos anos e não que os alunos sintam como as suas células cerebrais entram em funcionamento com o aparecimento de questões e um prazer em encontrar as respostas. Só assim a capacidade de pensar estará mais tarde também disponível. Nesses poucos momentos, saboreiam o enorme prazer em racionar que a escola quase já não lhes proporciona, assim como não foi proporcionado aos professores e que estes só em casos cada vez mais raros arriscam, porque se o fazem lhes cai em cima toda a máquina burocrática entretanto montada para impedir a criatividade, o improviso, o tempo necessário à aprendizagem.

Mas sem interesse não existe aprendizagem. Não se aprende nenhuma matéria se não for precedida de uma pergunta que exija resposta. Repreensões de professore são naturalmente um aborrecimento. Mas os professores também são só pessoas. E as políticas seguidas nos últimos anos, os ataques inqualificáveis que sofreram levaram a que muitos se tivessem despedido interiormente da profissão e aguardem o dia da aposentação. Os mais novos, em situação de precariedade há 6, 8, 10 anos, submetem-se ao velho-novo todo o poderoso Director e receiam qualquer espírito crítico. José Gil descreveu a institucionalização do chico-espertismo na educação “Em a Busca da Identidade.” É este o objectivo das “reformas” socráticas: chico-espertos, venerandos e obrigados.

Um tal balanço é tão desolador que quase empurra para a resignação. Experiências encorajadoras são quase inexistentes. Pedagogos, professores, pais e encarregados de educação interessados têm uma tal consciência da crise em que nos encontramos, que os deixa quase emudecidos. Nos últimos anos falou-se muito. Há tantos aspectos diferentes a considerar. A escola, desde que existe, está sempre em crise.

Abusou-se da palavra “reforma necessária”. Verdadeiras reformas na Educação, tivemos a de Veiga Simão antes do 25 de Abril e no período imediatamente a seguir. Desde aí seguiu-se um período mais ou menos restaurador.

É corrente dizer-se que os alunos estão desmotivados. Diz-se que até alunos que têm um pouco mais de interesse sofrem com o isolamento a que são votados pelos outros.

As razões parecem-me ser claras: a escola não é uma instituição que prepare os jovens para o futuro. A escola não existe para eles. E eles sabem-no ou suspeitam-no. Quando se perguntam que capacidade devem treinar para vencer no futuro, o que se lhes oferece? Talvez cabular de forma hábil? Eis uma característica que eles exercitam diligentemente. E estar up to date, impor-se, abrir caminho à cotovelada, utilizar o computador e a calculadora, tirar a carta de condução, estar em boa forma física, evitar o desnecessário, não se orientar pelos adultos porque estes vêm de um mundo definitivamente passado.

Perigoso para os jovens é que eles só confiam nas suas experiências elementares: repetem as estratégias de sobrevivência que se confirmaram no meio escolar e eventualmente no meio familiar e transferem-nas para a sociedade. Na verdade, não conseguem imaginar que conhecimentos necessitam para a tal flexibilidade que lhes é dito ser condição necessária para a sua futura vida profissional. Flexibilidade promete a oportunidade de poderem organizar a sua vida, de encontrarem sempre um lugar, apesar de todas as incertezas. Mas os jovens não precisam de saber cálculo mental para saber que não há oportunidades para todos. Existirão vencidos, muitos vencidos, segmentos inteiros da população. E quem não possui uma enorme ambição e um contexto familiar favorável pode desistir facilmente.

Os alunos ambiciosos também não apreciam os desvios, os estímulos para pensarem autonomamente, o prazer em divagações. Querem a previsível boa nota, querem deixar atrás de si, da melhor maneira possível com o mínimo de esforço, o programa escolar. Treinam-se para o rendimento preciso, para o qual nada se pergunta quanto ao sentido e conteúdo e exercitam não se deixar desviar do seu objectivo.

Não se pode pensar a escola sem pensar a sociedade. Isto também dificulta o debate. Onde estão os espaços autónomos para as escolas? Promete-se uma maior autonomia das escolas, fazem-se uns “contratos”. Mas que conteúdos de aprendizagem devem as escolas leccionar no futuro? Tem de existir um cânone de disciplinas igual para todos? Como é medido o rendimento? A escola obrigatória, com as suas obrigações formais ainda é actual? Está em marcha uma nova e profunda separação entre “elites” e “proletas” ou isto não passa de uma suspeita da esquerda? E há outras questões para o debate: a educação específica de género, a formação de professores, a escola e os pais e encarregados de educação, etc., etc..

“Os conservadores parecem ser os únicos que olham de forma optimista para o futuro e são felizes proprietários de uma estratégia ofensiva que implementam”, escreve Oskar Negt em Infância e Escola num Mundo de Mudanças. “Porém o seu olhar para o futuro vive do passado. As suas estratégias não consistem em nada mais do que a redução nua e crua do programa de modernização à racionalização tecnológica, à qual se junta o ritual ensaiado de valores e normas, da “coragem para ensinar”, enquanto decoração conceptual.” E Negt continua “Nunca como hoje se compreendeu tão abertamente a miséria do sistema educativo e de formação como uma exigência de soluções técnicas. Como na sociedade em geral, também aqui se propõem soluções para a crise que simplesmente conciliam o inconciliável: a libertação total da luta social darwinista, todos contra todos, na base de uma dinâmica económica sem barreiras sociais e legais, de conservadorismo de valores, da ilusão da comunicação em rede e da ressuscitada ideologia da família.”

A sociedade não dispensa grande atenção à escola, aos jovens. Estão na periferia, tem-se um medo latente deles, sabe-se pouco sobre eles, são deixados sós. Guarda-se a juventude nas escolas e receia-se o momento em que têm de a abandonar (alarga-se a escolaridade obrigatória…). Os jovens, pelo seu lado, vêem perante si uma infinita indiferença da política e da sociedade, que acumulam permanentemente novos problemas e nunca se encontram em condições de encontrar soluções

Talvez eles sejam mais os sismógrafos da crise do que se pensa? Eles não o articulam. Reagem só com a sua enorme recusa e às vezes com violência.

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2 Responses to Carta Aberta Incompreensível para a nova/velha equipa da Educação e PS de Sócrates

  1. […] Carta Aberta Incompreensível para a nova/velha equipa da Educação e PS de Sócrates   […]

  2. rosa maria gomes diz:

    excelente!

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