“A Educação do Educador”

GramsciAntonio Gramsci trata da questão do analfabetismo, num pequeno artigo publicado, em 1917, na revista La città futura. Como em Portugal, nessa época, a taxa de analfabetismo era enorme, principalmente entre o campesinato. O filósofo constatava que, como era suficiente para a vida na aldeia e na família falar em dialecto, não havia a necessidade de aprender a ler e a escrever. Nestas condições, escrevia, a aquisição destas capacidades era “uma tortura, algo imposto violentamente.” Por esta razão a propaganda socialista tinha “avançado mais com o conhecimento da escrita e da leitura do que todas as leis sobre a escolaridade obrigatória”, porque ela despertava “o sentimento intenso de não se ser só membro de um pequeno círculo determinado por interesses imediatos, mas sim, juntamente com outros cidadãos de um mundo muito maior, cujas ideias, esperanças e sofrimentos devem ser partilhados.” “A lei é obrigação”, escreve Gramsci, “pode obrigar-te a ir à escola, mas não pode obrigar-te a aprender e quando se aprendeu a não tornar a esquecer.”

A ideia de que a Educação podia promover a emancipação de uma classe oprimida e assim também a emancipação dos respectivos indivíduos, desempenhou, durante longo tempo, um papel central no movimento operário. Encontram-se ainda vestígios desta ideia no debate sobre política educativa dos anos 60 e 70 na Europa, nomeadamente nos países do norte e de alguma forma nos anos seguintes à Revolução do 25 de Abril em Portugal. Na Alemanha este debate conduziu, ainda assim, ao aumento acentuado do nº de crianças e jovens que puderam frequentar uma “escola superior”, embora os filhos da classe trabalhadora tivessem usufruído menos da reforma social-democrata dos anos 70 do que os filhos da classe média.

E hoje?

As “reformas” na educação dos últimos anos tiveram um apoio considerável na opinião publicada e mesmo em largos sectores da opinião pública. Não é de admirar: quanto mais precárias são as perspectivas económicas e profissionais de largas camadas da população, melhor se vendem as chamadas “reformas inadiáveis”, já que, aparentemente, só uma “boa formação” constitui a única segurança contra as vicissitudes de um impiedoso mercado de trabalho globalizado. Não deixa de ser irónico e paradoxal que exactamente a tradicional mobilidade social, que relaciona as possibilidades profissionais com diplomas públicos, seja motivo de tentativas de privatização da educação pública, veja-se a introdução do inglês no 1º ciclo do básico. A perda da maioria absoluta nas últimas eleições e a consequente substituição da equipa ministerial mais neoliberal que passou pela 5 de Outubro deverão, pelo menos, atrasar o objectivo final destas “reformas”: a educação deixar de ser um bem público, através da qual se estabelece alguma igualdade de oportunidades, e passar a ser uma mercadoria.

Por essa Europa fora, nomeadamente na Grã-Bretanha, passo a passo e persistentemente o sistema público de ensino tem sido envolvido em estruturas empresariais. As medidas são sempre as mesmas, quer sejam tomadas em países ricos ou pobres: livre concorrência das instituições, livre escolha dos estabelecimentos de ensino pelos “clientes”, bolsas, propinas ou cheque-ensino, que podem ser trocados nas instituições ou numa formação dispendiosa.

A retórica neoliberal relaciona sempre o mercado com a “liberdade”, o Estado com a burocracia, que impede a “abertura à sociedade civil”, “a concorrência” e as “reformas necessárias”. Aqui capitaliza-se o crescente descontentamento da população com a situação do sistema público de ensino, cuja suposta “situação ruinosa” faz parte da estratégia. Cada escândalo, cada caso de indisciplina é água no moinho dos defensores da privatização. Quem está disposto a fazer tudo o que é possível para proporcionar a melhor educação aos seus filhos, a cada notícia sobre a situação catastrófica nas escolas públicas, está mais disposto a pagar do seu bolso colégios particulares. Quantos professores do ensino público não têm os seus filhos no ensino privado?

Todos os que trabalham nas escolas ou nas universidades podem confirmar que quanto mais se grita pela liberdade e autonomia mais aumenta o controlo e a regulamentação. Com a “liberdade” vêm os exames nacionais e uma série de provas e exames que têm de ser implementados e avaliados nas escolas. Quanto mais “livres” são os professores nos estabelecimentos escolares, mais desavergonhados são os rituais de submissão exigidos. O Sr. Director submete-se aos “de cima” e exige submissão aos “de baixo”. A ficção de actores autónomos é encenada nas roupagens de definições de objectivos.

Os omnipresentes “ranking” e “rating” também fazem parte da retórica neoliberal na política educativa. A questão não é tanto quem ocupa que lugar. A falácia do ranking das escolas, ao qual o Público dedica páginas e páginas, está bem à vista. A questão central é que o primeiro tem de espezinhar para manter o seu primeiro lugar. O efeito é sempre o mesmo: a destruição dos interesses comuns e a alimentação da concorrência.

Não será preciso muita fantasia para avaliar as consequências, caso a revolução neoliberal na educação não encontre firme resistência política: para largas camadas da população a formação será cara e de má qualidade. Apesar de os custos aumentarem continuamente para os “clientes”, a educação para a maioria da população manter-se-á cronicamente subfinanciada, porque o financiamento será concentrado nas escolas e universidades de “excelência”, as tais que produzirão as “elites” agora tão em voga: regularmente afinam a cantiga da necessidade da formação e promoção efectiva das elites nesta época da “concorrência global” pelas “melhores cabeças”, que naturalmente se atrofiam se têm de frequentar os mesmos estabelecimentos de ensino com os inúmeros pacóvios.

Um sistema de ensino comercial será sempre um sistema de ensino anti-democrático. Onde reina a economia e o controlling, cada forma de participação democrática não passa de uma má anedota. Os problemas da política educativa não se esgotam, portanto, na avaliação e estatuto dos docentes.

Anúncios

One Response to “A Educação do Educador”

  1. rosa maria gomes diz:

    excelentes comentário e ponto de vista. quanta legislação terá que ser alterada para nos podermos concentrar no ler e escrever, para se poder partilhar das ideias dos outros.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: