O truque do diabo ou a despolitização da política

Francis Bacon, auto-retrato

Francis Bacon, auto-retrato

Os comentadores de serviço, os especialistas do costume, nomeadamente os expert em “assuntos económicos”, a maioria dos políticos e muitos jornalistas destroem o tecido democrático: a sua grande tarefa é despolitizar. Reforçam nas pessoas a ideia de que a Política é a soma de questões técnicas, de que pouco percebem porque são tão complexas que o melhor é deixá-las aos especialistas. Contudo isto não é verdade e é, provavelmente, uma das mais conseguidas falácias da ideologia neoliberal.

A tarefa da Política reside no tornar claro quais são as opções fundamentais sobre os valores e apresentá-las às pessoas para que estas decidam através do seu voto. Mas não é isso que acontece. Assistimos à dissimulação da questão dos valores, ao abafar dos conflitos. A tarefa dos jornalistas devia ser o pôr a nu estes mecanismos, mas parece reinar a promiscuidade.

Chegámos ao “fim da história”? Todas as questões estão esclarecidas? As opções sobre o rumo a seguir ficaram no passado? No passado lutou-se pelo direito à saúde, à educação, à habitação, à liberdade de informação, reunião e associação. E hoje? Todas estas questões estão definitivamente resolvidas? E as alterações climáticas, a guerra no Afeganistão depois do fim da guerra colonial, o colapso financeiro e a crise mundial, justiça social, energia atómica e energias renováveis, controlo da liberdade individual (cartão único, chip nas matrículas, vídeo vigilância) não são temas por que vale a pena lutar? Não há contradições fundamentais?

Não são os temas que mudaram. No limiar do século XXI, a questão fundamental é, como no século XIX e início do século XX, a “questão social”. O que mudou foi a cultura política. Tornou-se conservadora, pouco crítica e cómoda. Vale, pois, a pena recordar que os interesses são contraditórios entre os “de cima” e os “de baixo” e que não estão de forma nenhuma ultrapassados. O administrador do banco nunca terá os mesmos interesses do porteiro. O conflito fundamental entre vencedores e vencidos da globalização, entre os que têm poder e conhecimento e os que são dominados e não têm conhecimento mantém-se. No filme Os Suspeitos do Costume de Bryan Singer afirma-se: “O maior truque do diabo foi convencer o mundo de que ele não existia.” Não nos deixemos comer por tolos pelos neoliberais.

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