As eleições alemãs e a Esquerda: a credibilidade perdida do SPD e as opções dos Verdes e do DIE LINKE

Resultados Finais

Resultados Finais

As eleições alemãs de domingo trouxeram tempos interessantes à esquerda. A actual direcção (já demissionária) do SPD encontra-se tão longe da realidade que na própria noite das eleições, em total desnorte com os catastróficos resultados eleitorais – teimava em que os rostos da derrota (Steinmeier e Muentefering) continuariam no comando dos destinos do Partido – foi incapaz de reconhecer que os eleitores lhe tinham dado a única hipótese de um novo recomeço: mandá-los para a oposição na esperança de que esses duros bancos contribuam decisivamente para uma profunda reflexão do que correu mal desde Schroeder.

48h depois do histórico desastre reina o caos no SPD com demissões em catadupa e profundas dificuldades em encontrar alternativas. Os sociais-democratas estão a pagar muito caro a fidelidade nibelunga que reinou no Partido. Onze anos de Governo, onze anos de política neoliberal traiçoeira da sua matriz social-democrata não deixaram lugar para críticos do rumo político e da direcção. Hoje é mais fácil encontrar uma agulha num palheiro do que uma alternativa credível para conduzir o SPD. A única excepção é Wowereit, chefe de governo da coligação SPD/DIE LINKE em Berlim, mas resta saber se chegará a líder do SPD. Esta situação é bem a demonstração do total fracasso da esquerda social-democrata. Contudo a questão central é a definição de políticas. E o problema fundamental do SPD é a sua total falta de credibilidade. Como poderá Steinmeier representar uma alternativa credível ao governo CDU-CSU/FDP? Um dos arquitectos da Agenda 2010 (o maior programa de cortes sociais de que há memória na Alemanha do pós-guerra), porta-voz da justiça social?

Ganhos e Perdas

Ganhos e Perdas

Ao SPD não resta outra alternativa se não combater na oposição a política provavelmente não muito neoliberal do Governo. A questão é saber se o poderá fazer de forma credível. E certamente que o não será com os velhos rostos de responsáveis e apoiantes oportunistas da deriva neoliberal dos últimos anos.

Transferências de voto do SPD

Transferências de voto do SPD

Para os Verdes e o DIE LINKE colocam-se outras questões, não menos interessantes. Os Verdes, apesar de co-responsáveis pela Agenda 2010 e a entrada da Alemanha na guerra do Afeganistão, conseguiram ultrapassar essa situação não só porque a sua base de apoio é essencialmente constituída pela classe média e média alta intelectual, como tal pouco afectada pelos cortes sociais efectuados pelo Governo Schroeder-Fischer, como também depois da saída de Fischer reconduziu o Partido, com Trittin, para a sua área natural à esquerda. Os Verdes tiveram agora uma importante vitória eleitoral e teriam um papel claro numa coligação de esquerda: o correctivo ambiental e liberalizador nos costumes.

lafo2Se a oposição no Bundestag quiser mais do que ser oposição fundamentalista terá de apresentar alternativas. E a alternativa só poderá ser SPD+DIE LINKE+OS Verdes. O tabu de o SPD não negociar com o DIE LINKE foi a enterrar no domingo. A coligação já existente em Berlim, as conversações na Turíngia, no Sarre e no Brandenburgo permitem ao SPD a possibilidade de apresentar essa coligação vermelha/vermelha/verde como real alternativa.

O DIE LINKE é dos mais interessantes projectos da esquerda europeia. Apareceu como um projecto conjunto do leste e do ocidente contra a “nova” social-democracia tecnocrática, neoliberal e indiferente socialmente. Um SPD semi-destruído na oposição coloca o DIE LINKE numa nova situação: tem um novo concorrente na oposição. A tentação será grande em encurralar o SPD através de uma  concorrência ruinosa de quem se encontra “verdadeiramente” à esquerda. Se optar por esta via o DIE LINKE terá de pensar com quem quererá um dia substituir o Governo dos democratas-cristãos e liberais.

O DIE LINKE terá agora de se decidir se quer ser oposição fundamentalista ou quer assumir responsabilidades governamentais e assim contribuir para mudanças de política. Quem assume responsabilidades governativas corre sempre o perigo de não poder impor os seus pontos de vista e assim afastar eleitores. Quem só faz oposição corre o risco de a longo prazo não ser levado a sério pelos seus eleitores, porque para além de sonantes frases nada muda na política concreta.

A resposta a esta questão fundamental terá de ser dada agora. Desde que o PDS e a Alternativa Eleitoral Justiça Social se uniram, que o DIE LINKE tem actuado com algumas linhas de orientação programáticas. Agora depois das eleições não poderá adiar mais o debate sobre o programa do Partido e nesse debate terá de encontrar a resposta sobre o rumo que quer tomar. Marxistas tradicionais, românticos sociais defensores de um salário base para todos, sindicalistas de corpo e alma, sociais-democratas, feministas debaterão e lutarão por um Programa que ou será um programa de um partido de esquerda com o objectivo de ser governo ou o manifesto de um partido eternamente na oposição.

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O DIE LINKE encontra-se assim, depois do seu maior triunfo, perante a sua mais difícil escolha. Ou se deixa seduzir pelo populismo, o que lhe pode garantir votos a curto prazo, mas também lhe garante perda de importância a longo prazo ou se deixa empolgar pelo objectivo de uma perspectiva de poder com o SPD e os Verdes. Porém esta perspectiva só a terá se conseguir corrigir agora o rumo, o que é muito mais difícil depois de uma vitória do que depois de uma derrota. Sabendo-se como a esquerda alemã, como a esquerda em geral, adora a sua cultura de debate e discussão não deverá ser possível adiar por muito mais tempo a luta entre facções. Guerra dura e saídas do partido estão desde já programadas, mas se o DIE LINKE conseguir sobreviver a estas tardias dores de parto terá definitivamente encontrado o seu posicionamento na oposição e contribuir para a construção de uma alternativa de esquerda. Com Gregor Gysi e Oskar Lafontaine o DIE LINKE possui dois dos mais interessantes políticos da esquerda europeia, qualquer deles profundo conhecedor da história da Europa em geral e da esquerda em particular. Gysi, conhecido pela sua excelente e rápida capacidade de argumentação e pelo seu humor, convenceu muitos eleitores alemães ocidentais que estava na hora de abandonar o “molho consensual” em que navegavam todos os outros partidos. Será de importância fundamental para a esquerda europeia que o DIE LINKE tenha, agora, êxito.

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