O que é ser “bom/boa professor/a”?

102Apesar de a classe docente ter sido protagonista de uma das maiores lutas sociais contra a política educativa do Governo PS, a educação não parece ser um dos temas principais desta campanha eleitoral a avaliar, até agora, pelos debates televisivos entre os líderes partidários. E, contudo, trata-se de um dos temas político-sociais mais importantes: envolve, atinge e também prejudica mais de 1,5 milhões de alunas e alunos, cerca de 150 mil docentes, algumas dezenas de milhares dos agora modernamente designados “assistentes operacionais”, assim como milhões de Pais e Encarregados de Educação. O tema, portanto, deveria merecer um debate sério e não algumas linhas ou páginas nos programas eleitorais que procuram, fundamentalmente, capitalizar o justo descontentamento entre os docentes.

A lista de temas é longa: teorias de educação, filosofias da educação, políticas de educação, modelos de financiamento, orçamentos de educação, formação inicial e formação contínua de docentes, pedagogia, didáctica, metodologia, padronização da educação, modelos de competência, inspecção escolar, PISA, democracia nas escolas, órgãos de gestão, burocratização da função docente, etc., etc. Mais incompreensível se torna, principalmente à esquerda, a ausência da Educação na campanha eleitoral.

A política educativa de Sócrates-Maria de Lurdes Rodrigues representou um duro ataque à escola pública não porque tenha atacado “interesses corporativos” dos docentes, como muitos pobres de espírito querem fazer acreditar, mas porque procurou reduzir as escolas a estabelecimentos entre a “prestação de serviços” e o “depósito de crianças e jovens”. É imperdoável que o Governo de um Partido Socialista tenha abandonado, como linha orientadora, a principal tarefa da escola, numa perspectiva da esquerda, que é organizar a aprendizagem de forma a que dela possa resultar Educação, isto é a conexão entre Educação, Liberdade e Democracia. O objectivo da Educação não se esgota (muito longe disso) no “preparar para o futuro”, (traduzindo: para o mercado de trabalho, como se o ser humano se resumisse ao homo oeconomicus), mas sim permitir a escolha como alguém quer viver e possa justificá-lo perante si, chama-se a isto emancipação, no sentido kantiano.

Nesta estratégia foi indispensável a estigmatização da classe docente: preguiçosa (trabalha meia dúzia de horas e tem férias a maior parte do ano), incapaz (ainda ensina alguma coisa?) e altos salários (ganha demais para o trabalho que faz). E criou-se na opinião pública a imagem de uma escola em que de um lado estão os docentes com os seus interesses e do outro os alunos. E claro, interesses incompatíveis: desde a formação dos horários até à recusa inicial às aulas de substituição.

Os/as professores/as terão de conquistar a opinião pública se querem contribuir para uma alteração da política educativa deste Governo. As pessoas deverão perceber que, por exemplo, a exigência da mudança no Estatuto da Carreira Docente com a divisão entre professores e professores titulares não se esgota na questão salarial: a profissão docente vive da colaboração e esta divisão artificial veio criar um clima que em nada contribui para ela. É necessário, também, desmontar a falácia de que a avaliação está aí para “premiar” os bons professores, porque, todas as condições criadas, da divisão da carreira à nova legislação da gestão das escolas, impedem o trabalho dos/as bons/boas professores/as. E o que é ser “bom/boa professor/a”?

O/A professor/a tem de desempenhar vários papéis profissionais e sociais: tem de ser simultaneamente professor/a, pai, mãe, assistente social, moderador, organizador, guia turístico, criativo, conselheiro, entertainer, etc, para corresponder às expectativas e visões do que é ser “um/a bom/boa professor/a”.

Na verdade qualquer bom/boa professor/a sabe que se nas aulas não se ri durante muito tempo, algo corre mal. Na instituição escola, e agora mais ainda com a perversa avaliação, esquece-se com alguma facilidade que os seres humano, nomeadamente as crianças e os jovens, são seres emocionais e alegres e nenhumas estropiadas máquinas cognitivas.

Contudo o/a bom/boa professor/a não é, digamos, um Super-Clone pedagógico que desempenha os vários papéis de qualquer maneira. Ele/ela também é um ser emocional que actua de forma autêntica. E já não se pode reduzir a um “especialista da disciplina”, transmissor/a de conhecimentos, mas sim iniciador/a, conselheiro/a e organizador/a de novas culturas de aprendizagem. O método expositivo é um entre muitos e indispensável a partir do 7º ano, mas a regra deverá ser “ajuda-me, para que eu possa fazê-lo autonomamente.”

O/A bom/boa professor/a é um/a excelente artífice com uma grande caixa de ferramentas didáctica e uma grande capacidade de auto-reflexão. Sabe que os alunos não são tábuas rasas, não lhes quer encher a cabeça com conhecimentos para as próximas provas de aferição ou exames nacionais, que pode esquecer a seguir, mas sim receber, apoiar e construir a múltipla curiosidade do sujeito que aprende. A dignidade e a liberdade da pessoa são invioláveis, são pontos fixos da participação na sociedade e também de todos os esforços escolares. A formação da personalidade enquanto núcleo fundamental do processo de ensino-aprendizagem é um processo longo e com resistências da aquisição de uma compreensão complexa de si e do mundo.

A Educação afere-se assim num comportamento aberto ao mundo e sensível aos valores com consciência crítica. Possibilita ao Sujeito reflectir sobre o seu comportamento social e contribuir responsavelmente para a construção da sociedade. A Educação desagua na capacidade de discernimento, na sensível acto da capacidade de escolha. A Educação engloba, conserva e cria “memória cultural”, representa simultaneamente tradição e inovação.

O/A bom/boa professor/a tem capacidade de improvisação e evita andar em „fila indiana“, prefere assim o jazz às marchas. Trabalha em cooperação com os colegas e os Pais e Encarregados de Educação, mas sabe que só ele pode desempenhar o seu trabalho. Alcançar a mestria em campos pedagógicos complexos é um longo e espinhoso processo de auto-disciplina e auto-reflexão.

O/A bom/boa professor/a é, portanto, uma pedra no sapato na burocracia da 5 de Outubro. A política educativa de Sócrates-Maria de Lurdes Rodrigues apostou na sua redução ao máximo. Quer fazer das escolas centros de exames e de certificação de competências. Todos erramos, mas quem não aprende com os erros não tem futuro. Por razões insondáveis os políticos acreditam que esta regra não é válida para si próprios. O PS errou na política educativa e o reconhecimento deste erro terá de vir a ser feito. Afirmar que faltou “delicadeza” ou “dificuldades na comunicação das políticas” não mobiliza ninguém. O PS terá de encontrar outros actores e ter coragem para assumir o grave erro em que consistiu a política educativa socrática.

PS: Um destes dias 10 “pedras de toque” para orientar a auto-reflexão e teste prático de “aulas conseguidas”.

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