Os Espíritos Supérfulos do Neolib, por Ton Veerkamp

flue_05“Adam Smith conta, na sua obra principal, a história de um pequeno rapaz que tinha a tarefa de vigiar uma válvula. Puxando uma corda tinha de recolocar a válvula na sua posição original, depois de o vapor o ter levantado. O rapaz era esperto, atou a corda a um objecto fixo e a válvula conseguia recolocar-se na posição original através da corda bem esticada. Durante esse tempo o rapaz podia brincar. O dono da fábrica introduziu a descoberta e o rapaz acabou na rua. Para o rapaz o progresso tecnológico poderia ter significado uma melhoria das suas condições de trabalho e das suas condições de vida, para o dono significou redução de custos. A utilização de máquinas na produção significa melhoria das condições de trabalho e de vida para os que têm de fazer esse trabalho. O dono vê de outra forma; para ele só compensa a compra de uma máquina quando os trabalhadores no mesmo tempo produzem mais ou menos pessoas podem fazer o mesmo trabalho. A amortização de uma máquina tem de provocar menos custos do que o valor acrescentado ou que a redução dos custos do trabalho traz de ganho.[i] O progresso tecnológico encontra os seus limites no quotidiano capitalista exactamente neste cálculo. Aumento da produtividade significa que os trabalhadores individualmente ainda produzem mais. Isto funciona enquanto os produtos produzidos a mais são escoados. Enquanto se mantém as possibilidades de escoamento a economia “cresce”; a riqueza, independentemente da sua distribuição, aumenta. No momento em que se inicia uma certa saturação, o progresso técnico torna-se num problema, a não ser que seja utilizado para a redução de pessoal. Por cabeça produz mais produtos. Mas como esta maior produção não se pode escoar totalmente durante muito tempo, necessita de menos cabeças, menos mãos, menos pessoas. Ora, o aumento da produtividade é diferente de ramo para ramo. Mostramos isso num modelo de dois ramos.

Quanto consegue um pintor numa hora? A resposta a esta pergunta é uma declaração sobre a sua produtividade de trabalho. Uma resposta rigorosa só é possível depois de responder a uma série de outras perguntas, como: que pinta ele, uma parede, uma porta, uma fachada? Isto ainda não é suficientemente rigoroso. A porta pode estar em mau estado, a parede ter buracos, a fachada é muito ornamentada, etc. O cliente quer saber quanto tempo demora o trabalho e quanto custa. O mestre, que aceita a tarefa de renovação, visita o apartamento, calcula quanto tempo é que os seus empregados necessitam com base nos valores da sua experiência. Neste ramo da construção civil pouco se alterou nos últimos 20-30 anos. As tintas melhoraram, pincéis e rolos talvez também, mas os pintores há trinta anos não teriam precisado de muito mais tempo. A produtividade do trabalho é a relação entre o produto do trabalho (a renovação do apartamento) e o n° das horas de trabalho. Este sector é um ramo em que a produtividade do trabalho pouco se alterou. Considerando que o n° de contratos de renovação se manteve mais ou menos constante, a ocupação mantém-se ao mesmo nível.

Corre o ano de 1973. O Banco dos Correios emprega muitas pessoas, que lêem as ordens de pagamento, muitas delas escritas à mão, que ordenam o depósito numa conta e o respectivo abatimento noutra, quase tudo feito através de sólido trabalho manual. Em 2003 muitas das ordens de pagamento são processadas on-line, as outras lidas através de máquinas. Para todo este processo é necessária uma pequena parte dos empregados necessários em 1973. A produtividade de trabalho, o quociente entre as ordens de pagamento realizadas e o tempo necessário, multiplicou-se nos últimos 30 anos. Entretanto o Banco dos Correios podia ter concluído, deste aumento dramático da produtividade, que os seus empregados em vez de oito, só tinham de trabalhar 2 ou 3 horas diárias para realizar o trabalho. Mantendo o salário, a produtividade podia compensar as 5 ou 6 h diárias de mais tempo livre. Seria maravilhoso. Na verdade o Banco fechou os lugares excedentes, os empregados que ficaram cumprem as tarefas e o seu dia de trabalho mantém-se tão longo como há 30 anos. Agora o Banco oferece novos “produtos”, várias formas de poupança em vez da velha conta a prazo, aconselhamento para investimentos, acompanhamento para a utilização das novas tecnologias, etc. Para isso “criam-se” novos postos de trabalho, como quer a nova lírica económica. Apesar da “inovação de produtos” (também lírica) muitas pessoas ficaram pelo caminho, porque não se adaptaram às novas tecnologias e não responderam às novas exigências para a produção de novos “produtos”. Destas pessoas algumas empregam-se noutros ramos, outras são supérfluas e não encontram trabalho. Os espíritos de serviço já não são necessários.

No debate público dos últimos anos, trata-se destas pessoas. Não há medidas político-económicas, nem reformas no mercado de trabalho que possam aumentar o n° de apartamentos a necessitar de renovação, nem aumentar espantosamente o n° de ordens de pagamento ou de investidores famintos de informações sobre como aplicar as poupanças. Os salários dos empregados nestes dois ramos eram mais ou menos idênticos. Os empregados do Banco tratavam das ordens de pagamento dos pintores, estes renovavam os apartamentos dos empregados bancários. Os custos relativos do salário aumentaram mais rapidamente no sector da pintura do que no Banco, porque no banco era necessário menos tempo para realizar as tarefas dos pintores (as suas ordens de pagamento), do que estes precisavam para renovar os respectivos apartamentos. Como estes pintores se tornaram mais caros, os empregados bancários começaram eles próprios a renová-los ou a fazê-lo através de trabalho ilegal. Nos anos 70 iniciou-se a época de ouro das grandes lojas de materiais de construção. A associação de trabalhadores especializados de Berlim paga há muito abaixo da tarifa e o tempo de trabalho é muito superior ao acordado. Trabalha-se cada vez mais com intermediários, segundo o princípio “usa e despede”; o mercado de trabalho “flexível” há muito que aqui é realidade – muito antes das reformas Hartz I-IV. Isto não significou para a Associação de Trabalhadores Especializados de Berlim uma saída para a crise. O progresso tecnológico tem consequências profundas no equilíbrio social e necessita por isso de um controlo social. A política liberal compreende-o como um destino inevitável.

Mas a realidade económica é mais complicada do que o modelo de uma economia constituída por uma empresa de pintura e um Banco. Porém, a tendência na nossa sociedade do norte é evidente. Para conseguirmos produzir o n° dos velhos e novos produtos necessários, precisamos, na maioria dos diferentes sectores, de cada vez menos horas de trabalho. Só em períodos excepcionais, quando há uma explosão de novos produtos, pode o n° de horas de trabalho necessárias manter-se ou até aumentar. Este período excepcional foi em algumas regiões o período ~1996~2000. Mesmo neste período não foi possível equilibrar completamente a perca das horas de trabalho necessárias desde a crise dos anos 80; por esta razão se manteve alta a taxa real de desemprego. Quando o consumo aumenta à mesma velocidade que a produtividade, quando a estagnação de consumo nos antigos sectores é compensada com o consumo nos novos não há problemas. Como não é possível, sem mais, empregar nos novos sectores a mão-de-obra supérflua dos antigos, pode acontecer que em alguns sectores, apesar da alta taxa de desemprego, haja falta de mão-de-obra. Novos produtos não são a solução milagrosa para o desemprego causado pelo aumento da produtividade nos antigos sectores da economia. Para além disso os novos sectores não são novos durante muito tempo; também aqui se torna visível o aumento da produtividade. Hoje há mais informáticos do que o necessário. Existem na Índia, na Europa de Leste e na China em grande número; encomendas para tratamento de dados e programação são feitas a estes países. Aí o trabalho custa até 75% menos do que na Europa Ocidental ou nos EUA. Empresas como a Philips, Siemens, etc., transferem parte das suas actividades de pesquisa e desenvolvimento – até agora um bastião do Norte – para a China, para poderem participar no desenvolvimento tempestuoso dos mercados, mas também para usufruir das vantagens dos custos. A comparar com um engenheiro alemão, um engenheiro chinês é invencivelmente barato. Também uma ofensiva de formação nos novos sectores não cria nenhum aumento do emprego. Cada novo ciclo de aceleração-boom-desacelaração-crise inicia-se num patamar superior de desemprego. O mecanismo descrito atira cada vez mais gente para fora de rota. Elas têm de ser ocupadas ou sustentadas de alguma forma, mas certamente em dieta, já não irão desenvolver poder de compra. Pode-se afirmar sem qualquer restrição que o problema não será resolvido com as anunciadas “reformas”. Por isso é que as “reformas” exigirão sempre mais “reformas”, até que também no Norte exista aquele estrato de pessoas empobrecidas que conhecemos de outras regiões. O filósofo americano John Rawls chamou-lhe “um estrato baixo deprimido e humilhado” que “se sente abandonado e não participa na cultura política pública” (2002, 217). O n° de pessoas que se encontra nas cadeias, ultrapassou há muito nos EUA os 2 milhões, em termos relativos 10 vezes mais do que nos países industrializados do ocidente. Desconfiamos que existe uma relação entre o n° de presos e o n° daqueles que durante o desenvolvimento económico do último quarto de século foi dispensado. O progresso tecnológico, deixado à solta, provoca decadência social. Os nossos Aladinos precisam de espíritos trabalhadores, mas não de muitos.”


[i] Esta perspectiva é naturalmente pretensiosa. A utilização de máquinas provoca custos sociais e ecológicos. Como é a sociedade que os paga e não o fabricante, não aparecem no seu balanço. Manter-nos-emos nas fronteiras do modelo de um empresário para tornarmos visíveis as estruturas fundamentais.

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One Response to Os Espíritos Supérfulos do Neolib, por Ton Veerkamp

  1. ler todo o blog, muito bom

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