Escola a tempo inteiro um anacronismo?

102

A “escola a tempo inteiro”, com a “autonomia das escolas”, parece ser o slogan consensual da política educativa, à esquerda e à direita. Apesar de “escola a tempo inteiro” significar, desde logo, “mais escola”, mais dessa instituição “falhada” que só produz “facilitismos”, qualquer inquirição crítica é considerada anacrónica.

O que aconteceu nos últimos anos para que a compreensão do que é a família, a infância/juventude e a educação, se tenha alterado tão profundamente? Onde andam as preocupações da direita com a “retirada das crianças à família” e a sua entrega a essa origem de todos os males, o Estado? Ou a tendência para a “escola a tempo inteiro” é justificada exclusivamente por razões pragmáticas, não tendo nenhuma relação com a “melhoria do sistema de ensino”? Será que a política capitulou simplesmente perante o problema do desemprego? Quem se admirará que mesmo depois das 17.30h o novo Director todo-poderoso encontre uma equipa de futebol que não se deixa expulsar do recreio (isto caso o espaço não tenha sido alugado a uma qualquer empresa de campos sintéticos….)? Para o lar? Qual lar? A ser assim, a tendência para a escola a tempo inteiro não passaria de uma confissão envergonhada de que os tradicionais objectivos da família (que Ferreira Leite disse não abdicar) já não são alcançáveis e que a escola tem de compensar o fracasso das famílias.

Certamente que a situação não é assim tão inequívoca, ou pelo menos esta reflexão não se pode generalizar. É que, enquanto os futebolistas entregam, contra vontade, a bola ao porteiro, outros alunos e alunas já praticaram duas ou três horas de equitação ou ballet. Que farão estes talentos na “escola a tempo inteiro”, se já hoje quase não conseguem organizar tantas “actividades extra-escolares”? Será que atrás do slogan “escola a tempo inteiro” o que se esconde é uma estratégia de uma maior diferenciação social através da Educação, apesar de, à primeira vista, parecer o contrário? A história do conceito de “escola a tempo inteiro”, na Europa, ensina-nos que ele apareceu para compensar, sob a direcção do Estado, as desvantagens educativas das classes mais baixas. “Escola a tempo inteiro” para os em baixo e os outros podem ir para casa?

Mas talvez esteja a ser injusto e “a escola a tempo inteiro” tenha resultado da paixão de Sócrates pela Finlândia. A chave do êxito do sistema de ensino finlandês encontra-se no acompanhamento individual para além das aulas regulares. Em pequenos grupos, depois das aulas regulares, os alunos podem alcançar qualificações essenciais para assegurar a integração no seu grupo etário. Aprender em vez de andar a polir esquinas, é a ideia. E aí surge a dúvida: será que, realmente, a ideia é alargar a oferta qualificada de aprendizagem e de actividades de “tempos livres”? O Governo e os municípios estarão realmente dispostos a assumir o financiamento a longo prazo de uma “escola a tempo inteiro” digna desse nome?

A desconfiança tem a sua razão de ser. Como foi introduzido o (famoso) inglês nas escolas, que serve agora para um cartaz do PS afirmar que “todas as crianças aprendem inglês”? Onde está a conceptualização pedagógica da “escola a tempo inteiro”, que responda às necessidades das crianças e dos jovens? Onde está o pessoal e o espaço necessário? Um dos pontos principais desse acompanhamento deveria ser a supressão de todos esses défices de que é acusada a escola pública: não ter capacidade para detectar e suprir deficiências de linguagem até formas de dislexia, competências sociais dos alunos, discalculia, acompanhamento psicológico, se necessário com acompanhamento dos pais; projectos englobando a comunidade, apoio na integração das crianças e jovens de origem estrangeira ou de outras comunidades. É uma ilusão pensar que todas estas tarefas ainda podem ser assumidas pelos professores. Eles não foram formados para assistentes sociais, psicólogos, terapeutas da fala e trapezistas. Outros têm que assumir estas funções. Quem os forma? Quem lhes paga?

Mas não é só o silêncio da direita conservadora que espanta. O da direita liberal ainda é mais ensurdecedor. Onde andam os discursos contra a “mentalidade que espera tudo do Estado”? E contra a intervenção do Estado na vida privada dos cidadãos?

A escola, dizem, oferece cada vez menos as condições necessárias à juventude para ter êxito na sua vida profissional. A opinião pública conclui que a escola é simplesmente má. Silencia-se que uma parte do problema é da própria sociedade. O papel da língua no quotidiano e o significado e os “canais” de aprendizagem, para referir só dois aspectos, alteraram-se tão profundamente fora da escola que é legítimo perguntar se esta se encontra em condições e tem capacidade para alcançar os objectivos que lhe estão atribuídos. Para além disso, independentemente do nível de conhecimentos com que os alunos deixam a escola, a escola já não pode ter, como no passado, a pretensão de ser um fundamento duradouro para toda a vida.

Nos últimos decénios a Sociologia tem sublinhado a segmentação e diferenciação das condições de vida. Que significa então igualdade de oportunidades sob condições e perspectivas tão diferentes de vida? Aqui surgem dúvidas fundamentais sobre a escola e o seu papel. O mainstream português pode pensar que se pode dar ao luxo de abafar estas dúvidas e tornar os professores no bode expiatório do que está mal. Mas esse recalcamento não vai durar sempre. Os problemas vêm à superfície de forma simples: milhares de alunos faltam às aulas, milhares não terminam a escolaridade obrigatória. Por muitos malabarismos estatísticos que se façam.

Perante isto será que “a escola a tempo inteiro” não será um anacronismo? Trata-se de saber como é que os defensores da desregulação e do “Estado mínimo” pensam conseguir que as mesmas mulheres, que querem nos locais de trabalho 50h ou mais horas semanais, sejam simultaneamente mães extremosas. Trata-se de saber se o colapso do primeiro (Pais) dos três pilares da Educação (Pais, Crianças e Professores) poderá ser compensado por uma maior carga do terceiro (Professores). A Esquerda (ou pelo menos parte dela) deveria problematizar a questão, mas parece que a sua política educativa se esgota no tacticismo eleitoral.

Anúncios

4 Responses to Escola a tempo inteiro um anacronismo?

  1. Ana Maria feiteira diz:

    Excelente post!

  2. maria prates diz:

    Creio que este texto devia circular por muito mais lugares, talvez fizesse pensar mais alguns. estes são precisamente os problemas com que eu como mãe me debati e tenho certeza muitas outras o pensam.

  3. […] Mais uma vez. Leia-se, a propósito o magnífico texto publicado no blog “Rua do patrocínio”: Escola a tempo inteiro um anacronismo?. Esta entrada foi publicada em Educação, Educação e suas falácias amestradas com as tags […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: