O Cenário de Pânico da Direita Portuguesa

Depois da entrevista de Ferro Rodrigues ao Expresso, alguns dos eternos comentadores políticos têm vindo a “alertar” para a possibilidade de um governo PS com apoio parlamentar dos partidos à sua esquerda. Eis o cenário de pânico da direita portuguesa mascarado da “ingovernabilidade” do país.

PCP e BE não têm perdido oportunidade de negar qualquer acordo com o (actual) PS, o BE personalizando em Sócrates as políticas neoliberais, o PCP argumentando que primeiro é necessário uma ruptura do PS com o que chama “políticas de direita”, ambos afirmando demagogicamente que não há diferenças entre os programas eleitorais do PS e do PSD. (As diferenças, apesar de mínimas no sector económico, existem e a esquerda, se quer um debate sério, não pode ignorá-las).

Do lado da(s) esquerda(s), porém, também não se tem notado nenhum esforço sólido no sentido de procurar encontrar uma plataforma mínima de entendimento que permita ao que resta da ala esquerda do PS – que fracassou em toda a linha nos últimos 4 anos – (de ferristas a soaristas, passando pelos alegristas) ganhar uma maior influência na definição do rumo a seguir pelo PS.

Coligações ou acordos de incidência parlamentar ou outros raramente nasceram de perspectivas românticas, mas sim de necessidades políticas, bloqueios de reformas reconhecidos socialmente e programas comuns. As diferenças têm de se manter reconhecíveis e não simplesmente atiradas para debaixo do tapete.

Hoje em dia, na Europa, um número cada vez maior de sociais-democratas pensa que a social-democracia/socialismo democrático subestimou o poder destruidor dos mercados livres globais e que o conjunto da esquerda foi incapaz de romper esse poder através de uma política social global. Muito pelo contrário, o Zeitgeist soprou violentamente contra a esquerda. Parte da esquerda deixou-se varrer por este vento também porque a direita soube aproveitá-lo para reduzir o espaço político, colocar o mercado antes das pessoas e reforçar a desigualdade social. Num interessante artigo publicado em Junho passado e que, exceptuando uma referência num comentário da jornalista São José Almeida, não mereceu uma linha de debate Ana Benavente procurou, aparentemente sem êxito, lançar esse debate na esquerda portuguesa.

Devia ser tempo de a esquerda retirar as lições necessárias da crise actual. Trata-se de pensar uma alternativa de futuro que permita a emergência da mudança de paradigma na redistribuição da riqueza, da democratização da economia, da politização da cultura assim como do reforço da comunidade. Trata-se, nada mais, nada menos, do primado da Política, do Estado Democrático, assim como do bem comum antes dos interesses do “mercado”.

Esta discussão deveria interessar a toda a esquerda portuguesa. Uma sociedade melhor tem de ser uma sociedade mais democrática. Em tempos de “crise histórica do capitalismo” a esquerda tem de ser uma “esquerda de valores” e não pode esgotar-se num pragmatismo oportunista ou numa revolução longínqua. O receio das pessoas em perder o seu lugar de trabalho não é uma discussão virtual, mas profundamente real. Todas as propostas da esquerda que não dêem resposta a este receio passam ao lado das necessidades reais das pessoas. Para que a esquerda consiga sair programática, estratégica e politicamente reforçada desta crise a convicção de que o ser humano e não o “mercado” se deve encontrar no centro das preocupações políticas tem de se tornar um valor indiscutível para a larga maioria da nossa sociedade.

O PCP e o BE cometerão um grave erro se considerarem, por razões tácticas diferentes, ser indiferente um Governo PS ou PSD na próxima legislatura. O programa do PSD aponta claramente o rumo que quer seguir: o do neoliberalismo (possível nas actuais circunstâncias). Existem, à esquerda, posições muito diferentes sobre o futuro da União Europeia (por onde passa fundamentalmente a política económica nacional), sobre o papel das Nações Unidas, sobre o funcionamento das instituições financeiras mundiais. Contudo, perante a dimensão dramática da crise, a esquerda tem de se concentrar, apesar de todas as suas diferenças, no reforço do potencial democrático a todos os níveis assim como numa outra arquitectura da redistribuição da riqueza, dois dos seus valores matriciais. É, portanto, tarefa da esquerda distribuir justamente o ónus da crise. O que hoje se chama “nacionalização” (caso BPN) não é nenhum programa reformista emancipador, mas sim a socialização dos riscos e prejuízos da crise financeira.

O PS terá de reconhecer que, depois dos inúmeros excessos de privatizações do passado, o significado do sector público para a sociedade, para o desenvolvimento sustentado e para a própria Democracia ganhou uma nova dimensão. O sector público tem de ser envolvido numa estratégia política alternativa, apoiar o desenvolvimento económico regional e ecológico, modernizar a infra-estrutura autárquica.

Um sector público forte e moderno assim como a democratização da sociedade são projectos de futuro para uma discussão programática à esquerda. Assim a esquerda (incluindo a do PS) se esforce para que os próximos resultados eleitorais permitam a concretização do cenário de pânico da direita portuguesa. Uma vitória (mínima) do PS e um reforço da CDU e do BE contribuiriam para a necessária mudança na direcção do PS.

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