Educação, o que é?

102Apesar de, já há cerca de 200 anos, Wilhelm vom Humboldt espremer os miolos para alcançar uma definição do conceito de educação, parece que desse esforço ainda hoje poucos ecos chegaram ao debate, mais mediático que político, sobre a educação em Portugal. Curiosamente, o debate (?) sobre a política educativa do Governo Sócrates, à esquerda , não tem questionado o seu credo fundamental, que corresponde a um fatal equívoco: ela equivale educação e qualificação profissional. O PS, com Sócrates, tornou-se assim no grande paladino da política educativa neoliberal.

De facto hoje confunde-se, quer no debate mediático, político, quer nas exigências da economia e dos empresários, dos Encarregados de Educação e até dos professores, numa escala assustadora, Educação e Qualificação. Central para Humboldt no seu ideal educativo era, porém a LIBERDADE, o desenvolvimento da pessoa numa acção livre com o mundo que a rodeia.

Esta Liberdade é inexistente no sistema de ensino, nomeadamente nas suas escolas. Em vez disso, na maioria das cabeças encontra-se, orientada para a economia, uma doutrina da utilidade da pessoa pretensamente “instruída”. As linhas orientadoras da política educativa actual, do 1º ciclo à Universidade são, resumidamente, qualificação para uma futura profissão, o reforço da economia, maior capacidade de concorrência com outras economias.

Mas para ser “instruído”, “culto”, “educado” no sentido de Humboldt é, antes de mais, ser-se pessoa. Sabedoria e virtude, mas principalmente, capacidade crítica. Tudo isto são resultados de um ideal de educação que vai muito para além de uma mera qualificação funcional. Desde sempre que, exactamente, os constrangimentos económicos foram o seu maior inimigo porque eles sugeriam que este ideal só podia ser alcançado por uma elite aristocrática privilegiada, tudo o resto seria irrealista. Hoje a situação é diferente: a política educativa promete educação e igualdade de oportunidades para todos. Só que isto não é educação mas sim mecanização orientada para a utilidade de uma grande parte da juventude. E esta igualdade de oportunidades é uma mentira porque os “constrangimentos económicos” pesam hoje mais do que uma educação orientada para todos, que mereça esse nome.

O PS de Sócrates, nos últimos quatro anos, contribuiu decisivamente para que nas escolas o objectivo não seja mais o conhecimento e a liberdade crítica, mas sim tudo o que seja mensurável: quanta informação consegue o aluno retirar do texto? Consegue interpretar correctamente o diagrama? O esforço aplicado já não conta, que é maior nuns do que noutros porque o objecto é mais estranho a uns do que a outros, já não conta o que afinal constitui a educação: o processo de aquisição de conhecimento. Excursões, idas conjuntas ao cinema ou ao teatro, discussões sobre temas actuais que, provavelmente não estão nos programas, mas que interessam os alunos, tudo isto pode ser “poupado” pelos professores e alunos: poupam tempo. E esse tempo precisam dele para adquirir as competências que contam na economia capitalista. E essas competências são definidas na perspectiva do “capital humano”, ou seja as qualidades que contam exclusivamente para o mercado de trabalho.

“A escola a tempo inteiro” é talvez o melhor exemplo da ausência de crítica séria e profunda, da esquerda, à política educativa do PS.

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3 Responses to Educação, o que é?

  1. JimComa diz:

    O grande ponto onde ninguém quer de facto entrar e assumir é a verdadeira dimensão do papel da escola nos dia de hoje e de ontem. Serve a escola para EDUCAR ou para ENSINAR?
    A escola deve ensinar a ter espírito crítico, a desenvolver a aptidão individual pata absorver o que nos rodeia a partir da educação que cada um traz de casa.
    Enquanto se mantiver esta dialéctica em que as competências de uns se sobrepõem e tornam difusas as linhas de separação, ninguém atingirá a luz! Assim, a escola continuará a resvalar para uma pseudo-escola, e os pais continuarão a pensar que estão a agir correctamente na sua ânsia de se tornarem nos heróis dos filhos que de outra forma não conseguem ser nos dias de hoje.
    Para terminar, sobre o pensamento crítico… não eram eles que queriam acabar com a filosofia?!…

  2. […] …mas porquê? Olha, se olhares à tua volta…Ok! Ok…mas não acha que…sei lá, eu pensava que…E deves continuar a pensar por ti! Pois, mas nem sempre nos levam a sério e acham que somos uma cambada de trolls, sempre do contra, que só pensa em curtir e tal! Até já a porra da minha avó me atira bitaites, em coro com a minha mãe! Oh…desculpe lá o porra, até gramo a minha cota Alzira. Mas o que mais me encanzina é aquela coisa do "no meu tempo..coisa e tal…". Isso é normal, as gerações anteriores esquecem, debaixo de uma espécie de patine, algumas das suas turbulências de crescimento, das suas opções de barricada e tendem a resgatar, selectivamente, apenas princípios, condutas que, de algum modo, lhes nortearam as suas vivências e que reputam de positivas. Tá bem! Mas nós, jovens, devemos fazer o nosso próprio caminho, certo? Certíssimo! A função da família, e não só, é colocar os sinais de trânsito da vida, explicar a função de cada um mas, depois, será da tua responsabilidade a condução e a opção da via. Espere lá…! Está a dizer-me que devemos escutar sempre os mais velhos? Acha que têm sempre razão, é? A maior parte das vezes são melgas comó caraças! Os cotas parecem estar a viajar noutro planeta! Percebo-te. Percebe-me mesmo? Claro que percebo, é a tua rebeldia saudável a subir à espuma das coisas. Rebeldia saudável? Lá em casa chamam-lhe outra coisa! Deves escutar os mais velhos, sim, e mesmo que em dado momento te salte a tampa aproveita para posteriormente reflectires. Sabes? O que me aflige na escola é o facto do acto de pensar estar a tornar-se quase impossível. As políticas educativas vão no sentido, bem "eduquês", de desenvolver competências – automatização de mecanismos virados para a produtividade material, mensurável. Acredita-se que o indivíduo, munido de menos de meia dúzia de competências, de sensibilidade duvidosa, se encontra apto a entrar nas roldanas da sociedade. Ehehehe…gramei essa das roldanas!  Eu até gosto de pensar, questionar mas mandam-me logo calar, em casa e aqui na escola, com alguns professores. Os programas, pá, os programas a cumprir congelam-nos o pensamento. É isso, muitas vezes gostaríamos de falar sobre assuntos que nos afligem, nos atacam de momento, mas…Sabias que Sócrates……hã?! O nosso 1º? Não, o filósofo ateniense e um dos fundadores da actual Filosofia Ocidental..Ah! Esse…Sim, dizia eu, tinha uma forma peculiar de filosofar – o método socrático – uma prática que consistia em dois processos: a ironia e a maiêutica. A ironia procurava provocar o interlocutor através de várias perguntas até este tomar consciência da sua ignorância. Ah…aquela frase do "Só sei que nada sei" é dele, não é? É, aliás essa frase prova a sua humildade relativamente ao conhecimento. A maiêutica é uma espécie de "parto intelectual" do interlocutor resultante das contínuas questões. Puxei o Sócrates a propósito do pensamento e da liberdade que ele nos dá. Ele foi condenado à morte e sabes qual foi uma das razões? Não sei, só sei que o obrigaram a beber veneno….cicuta, acho eu. Entre várias acusações, consideraram-no corruptor da juventude.Entre boatos e coisas menos claras, destaca-se o facto de ele "fazer" com que os jovens pensassem. Hã?…e isso é mau? Era…foi, é! Tinha como principal objectivo a formação autónoma das pessoas, pois pretendia transformar uma "massa natural"sem forma numa bela representação individual do espírito. Assim, o conhecimento primordial do homem deve ser o conhecimento de si mesmo. Não impunha o conhecimento, ajudava a que este surgisse do interior do discípulo, por mérito próprio. Daí aquela sua outra frase bem conhecida: " Conhece-te a ti mesmo". Já li isso algures e fiquei a pensar…Um dos seus discípulos foi Platão, filósofo e  historiador do pensamento de Sócrates e que, contrariamente ao seu mestre, deixou muita obra escrita, defendia que ninguém antes dos 50 anos devia fazer parte de um governo. Implica o tal conhecimento, amadurecimento, em suma. Nas democracias actuais, verifica-se a tendência para coarctar o pensamento, a liberdade de expressão sob a forma ardilosa de directrizes legais. E pensarmos que as escolas possam ficar manietadas, numa das suas vertentes essenciais – desenvolvimento do pensamento e capacidade crítica em liberdade –  por imposição de programas escolhidos a preceito, "educações" para tudo ( ecossistema, buraco do ozono, sinais de trânsito, direitos dos animais, do Homem e da Criança, boas práticas de alimentação, sexo, afectividades, doenças sexualmente transmissíveis, incêndios, catástrofes naturais, etc…etc…mas como diz o sagaz Albino da CONFAP: "os professores são pedagogos por isso devem saber ensinar tudo") e catadupa de tarefas de mangas-de-alpaca, assusta. Esse sujeito é aquele das Associações de Pais, não é? É e agora imagina-me tu a escutar/ler isto! Pois, se é de literaturas….é bem capaz de se encolher a ensinar aquelas coisas todas. O homenzinho sabe lá do que fala? Eu não ensino nada daquilo…nem quero. Uma coisa é eu falar, por experiência própria e a talho de foice, outra será a formalidade científica e pedagógica exigidas para desenvolver as tais educações "de". Além de roubar a tal frase ao Sócrates ainda acrescento: não suba o sapateiro além da chinela.Xiiiii….uma sms: estou atrasado! Curti. Bué!Vai lá, puto. Até por aí.Educação, o que é? […]

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