A Lâmpada Mágica de Aladino, por Ton Veerkamp

aladino “O filho de alfaiate Aladino era um verdadeiro incapaz, que vivia do trabalho da sua mãe. Um dia um estrangeiro pediu-lhe um serviço. Aladino aceitou e depois de algumas confusões ficou dono de uma velha lâmpada, que o estrangeiro queria. Uns dias mais tarde limpou a lâmpada. De repente, apareceu um espírito que disse ao preguiçoso Aladino que cumpriria qualquer serviço que ele lhe ordenasse. A mãe, a quem a vida tinha ensinado muito, pediu encarecidamente a Aladino para deitar fora a Lâmpada. Evidentemente, Aladino percebeu rapidamente que com aquela lâmpada não tinha que mexer mais uma palha. Iria poder viver, sem grandes problemas, do trabalho do espírito. Com a modéstia inicial do homem simples, manda-o buscar comida. A ordem é cumprida para grande satisfação de Aladino, pois a comida é servida em pratos e tigelas de pura prata, que vendeu. A pouco e pouco os desejos vão-se tornando cada vez menos modestos, até que o impossível se torna possível. O Espírito traz-lhe uma fortuna incalculável com a qual pode convencer o Sultão a dar-lhe a sua filha. Manda o Espírito construir um Palácio nunca visto em beleza e riqueza. Esta felicidade é sempre precária, o invejoso da sorte, o concorrente, nunca dorme. O irmão do estrangeiro enganado aparece, apodera-se da lâmpada e assim do Palácio com a filha do Sultão.

A lenda acaba bem, o mau é morto, Aladino e a sua noiva herdam o reino. A fantasia da contadora de histórias de Bagdad era inesgotável. Ela, a princesa persa Scherazade, contou as suas lendas durante mil e uma noites ao famoso dominador do império mundial de Bagdad, o califa Harun Arraschid. Mas as lendas foram pensadas para as crianças do reino e para as crianças de todos os reinos de todos os tempos. Elas deviam, desde pequenas, descobrir toda a sabedoria universal que Scherazade escondeu nos seus contos. Na Lâmpada Mágica de Aladino esconde-se uma parábola que nos permite compreender melhor as condições dos nossos dias.

“Deixe o seu dinheiro trabalhar por si” publicita um grande banco. O dinheiro trabalha, as pessoas tornam-se ricas durante o sono, sugere o Banco. O dinheiro não trabalha, as pessoas trabalham. Quem tem muito dinheiro é como Aladino. Possui uma lâmpada mágica. Pode acordar o espírito da lâmpada. O espírito é um exército de pessoas trabalhadoras. Este Aladino moderno não tem só de acordar o espírito da lâmpada mágica, tem de o convencer a trabalhar para si. O Espírito, exactamente esse exército de milhões de pessoas trabalhadoras, cumpre as tarefas do proprietário da lâmpada, e coloca aos seus pés a riqueza que produz. O proprietário da lâmpada pode levar as pessoas a trabalhar para ele obrigando-as através da violência. Tem menos custos quando ele consegue fazer acreditar que pertence à ordem natural do mundo que alguns possuam a lâmpada e outros tenham de cumprir as tarefas do proprietário da lâmpada. Mais ainda, as pessoas têm de acreditar que afinal também é tudo para o seu próprio bem. O primeiro mandamento desta fé diz que a propriedade das lâmpadas mágicas é o direito humano mais sagrado e elementar, o segundo que o proprietário de tais lâmpadas tem o direito de comando sobre os espíritos solícitos ao serviço. O terceiro mandamento anuncia, finalmente, que assim surge o melhor dos mundos, desde que o proprietário da lâmpada e espíritos possam actuar como querem. Esta fé é o Liberalismo. É certo que hoje há alguns problemas. Há mais espíritos do que os modernos Aladinos podem precisar. Infelizmente, a parábola do belo conto não esclarece  tudo; mas mesmo assim diz-nos: sem espíritos solícitos para o serviço não há Aladinos.”

Ton Veerkamp, Der Gott der Liberalen, Argument Verlag, 2005.

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