Solilóquio?

Leão XIII, em 1891, na sua Carta Encíclica “Rerum Novarum”, analisou “coisas novas”, que já não eram tão novas como isso: a agudização da questão social como resultado da industrialização, o movimento socialista dos trabalhadores e os sindicatos. A Encíclica não se destinava só aos católicos e aos padres, mas “a todos os homens de boa vontade”. “Rerum Novarum” foi o início da doutrina social católica. Desde aí que os Papas, com as suas Encíclicas, estabelecem um diálogo com os problemas sociais e económicos da sua época.

A Encíclica de Bento XVI, “Caritas in Veritate”, não foge, portanto à regra. Na sua versão portuguesa possui 50 páginas, 79 alíneas e 158 notas de rodapé (http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20090629_caritas-in-veritate_po.html). Contudo, uma mera consulta às notas de rodapé mostra que o diálogo de Bento XVI não é um diálogo com o mundo, mas sim com a tradição católica. Afinal, o diálogo não passa de uma conversa com os seus iguais e consigo próprio.

No seu tema de eleição – a relação entre a fé e a razão – o Papa confirma o seu fundamentalismo e afasta-se de Kant: “A razão tem sempre necessidade de ser purificada pela fé; e isto vale também para a razão política, que não se deve crer omnipotente. A religião, por sua vez, precisa sempre de ser purificada pela razão, para mostrar o seu autêntico rosto humano.”

Apesar de referir as “actividades financeiras especulativas”, a “redistribuição injusta” ou “a actividade económica não pode resolver todos os problemas sociais através da simples extensão da lógica mercantil. Esta há-de ter como finalidade a prossecução do bem comum, do qual se deve ocupar também e sobretudo a comunidade política. Por isso, tenha-se presente que é causa de graves desequilíbrios separar o agir económico — ao qual competiria apenas produzir riqueza — do agir político, cuja função seria buscar a justiça através da redistribuição”, o teólogo jesuíta Friedhelm Hengsbach fala de uma “pálida descrição” da actual crise mundial ( http://www.fr-online.de/in_und_ausland/politik/aktuell/1825968_Papst-Enzyklika-Sozialethiker-kritisiert-Defizite.html) e afirma “ a argumentação do Papa é em parte muito difusa”, “ela só é compreensível para as pessoas cristãs” e critica a Encíclica por “não conseguir estabelecer um verdadeiro diálogo com todos os seres humanos que se preocupam com um verdadeiro desenvolvimento humano do mundo”.

Mas a principal característica de “Caritas in veritate” é a sua ambiguidade, o que permite que cada um retire o que lhe convém. Os sindicatos citarão a alínea 25 onde a deslocalização para países de salários baixos implicou “a redução das redes de segurança social em troca de maiores vantagens competitivas no mercado global, acarretando grave perigo para os direitos dos trabalhadores, os direitos fundamentais do homem e a solidariedade actuada nas formas tradicionais do Estado social.”  Os patrões e os ideólogos neoliberais citarão a alínea 58 com o aviso sobre “um sistema social” “que humilha o sujeito necessitado.”

Caritas in veritate” é, afinal, um monólogo ambíguo de Bento XVI.

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